É por isso que me serve e me impacta a literatura, por me causar mergulhos, ânsias, reconhecimentos e imersões.

Antes de começar a falar sobre o livro gostaria de lembrar que nenhuma obra (literária, musical, cinematográfica, teatral, etc) deixa de ser boa ou primorosa na medida em que se torna mais conhecida, comentada ou famosa. Digo isso, pois, dias desses, ao me ver com o livro de Dostoiévski no carro, um amigo perguntou, com certo desânimo, se eu o estava lendo. Com a resposta positiva, logo emendou que “não gosta muito dessas coisas tão famosas ou que todo mundo lê”.  Fico aliviada em nunca ter tomado tais características como parâmetro. Crime e Castigo figura em diversas listas de grandes clássicos e “livros que você não pode deixar de ler” e, realmente, a leitura me valeu imensamente.

Gosto de pensar que os livros valem à pena quando realmente te fisgam como leitor individual e despertam aquela sensação de que o autor soube nos adivinhar a própria mente. Meus pensamentos não se encontram com o do protagonista Raskólnikov, afinal, sua maldade genuína e certa crença em uma teoria que o fazia se enxergar como indivíduo especial e merecedor de recompensas, o fizeram cometer um crime, assassinando o que acreditava se tratar de um ser humano dispensável. O assassinato aqui revelado não se trata de um spoiler, já que o importante na narrativa é a leitura quase angustiante de todos os pensamentos e o martírio psicológico de Raskólnikov. Neste ponto o autor me fisga e me lembro da certeza máxima de que o próprio pensamento torna-se nossa maior prisão.

“Mas onde teria ele ido buscar esses sentimentos? (…) Tal era o vazio que, de súbito, se apoderara do seu coração. Uma infinita solidão se revelava subitamente à sua consciência”.

A partir de sua culpa interna e do medo de ser descoberto, o jovem estudante não consegue mais prosseguir com sua vida e se vê atormentado dia após dia pela própria incerteza que o persegue em toda parte. A obra se estabelece como uma das maiores da literatura universal e consagra Fiódor Dostoiévski como um dos maiores escritores russos da história. Com estilo impecável e grande profundidade psicológica, foi possível sentir a cada página os instintos e delírios experimentados pelo protagonista. Acredito que é este o ponto alto do livro: imersão. A sensação de me sentir mergulhada e inserida entre os anseios de Raskólnikov me levou a devorar as 618 páginas, terminando com a vontade de acompanhar ainda mais o desenrolar os próximos passos, descobertas, anseios e certezas do personagem.

A teoria criada pelo estudante, que divide os seres humanos entre comuns e extraordinário, nos leva a repensar a natureza e origem dos crimes. Elaborando a teoria e colocando-se, obviamente, entre o grupo dos extraordinários, Raskólnikov acredita profundamente na decisão que toma e na crença de que deveria ser perdoado por seu próprio tempo por ter cometido o ato em prol de um bem maior. O autor nos faz ver cada momento, sentir cada pulsar no peito do personagem, e nos envolve de modo alucinante.

O personagem passa por grandes dificuldades financeiras, assim como sua mãe e irmã. Sem aceitar ajudas, desesperado, Rodion começa a criar um plano: matar e roubar uma velha agiota desagradável, Alyona Ivanovna. Ele acredita que a senhora mereça esse destino, e que ele é predestinado a cumprir isso por uma força sobre a qual não tem controle.Na noite do crime, além de assassinar a velha com um machado, ele acaba matando também sua meia-irmã Lizaveta, que testemunhou tudo. Chocado com suas próprias ações, Rodion não rouba praticamente nada – apenas um punhado de itens – e deixa a maioria da riqueza da agiota para trás. Ainda assim, ele conseguiu fugir sem ser pego. Contudo, depois do seu crime, Rodion torna-se obcecado com o assassinato e cada vez mais paranoico.

“Muito; havia já muito tempo que se enraizara e crescera nele toda essa tristeza atual; nos últimos tempos se acumularam e reconcentraram, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que lhe torturava o coração e a alma, reclamando uma resposta urgente. (…)Era evidente que agora não se tratava de ficar triste, de sofrer passivamente, fazendo apenas apreciações acerca da insolubilidade daqueles problemas, mas de fazer impreterivelmente qualquer coisa, imediatamente, o mais depressa possível. Fosse o que fosse, era preciso tomar uma decisão ou… Ou renunciar completamente à vida!”

Toda a angústia é registrada, desde o momento em que se prepara para cometer o crime até os delírios que fazem com que Ródion busque confissões e se entregue como culpado. O jovem não está entre os suspeitos no inícios das investigações do assassinato, mas quando é interrogado pelo juiz Porfirio Pietróvitch a situação ganha novos contornos e o enredo ganha uma nova direção. Durante seu interrogatório, Ródion é dominado por sentimentos de grandeza e trata um duelo interno com o opositor que o interroga, sentindo-se superior e mais inteligente. Quando os interrogatórios aumentam, o jovem percebe que começa a perder o controle e se vê dentro de um jogo psicológico criado pelo juiz. O romance é cercado por temas que envolvem a psicologia, a religião e as certezas de nossa sociedade. Raskólnikov nos coloca frente à afirmação, ainda atual, de que matar apenas um é crime, enquanto matar milhares pode transformar-se em ato de heroísmo.

Ao longo da trama, o personagem encontra alguém que o faz sentir amor pela primeira vez na vida, podendo representar, na obra, a possibilidade de fé e redenção. Raskólnikov encontra uma luz e novas possibilidades em um diálogo com Sônia. É para ela que ele confessa pela primeira vez seu crime. Durante sua condenação na prisão, onde permanecerá por 8 anos, influencia-se pelo amor de Sônia e sua mudança moral tem início. Antes de confessar-se, ninguém sabe que ele matou a usurária. Foi, na verdade, um crime perfeito. No entanto, como superar a culpa e os castigos impostos por nossa própria mente? Somos autores de nossos fantasmas.



Autor:
 Fiódor Dostoiévski

Editora: Editora 34

Páginas: 561

Assunto: Reflexões, Filosofia, Clássico, História que nos faz divagar

Sinopse: Publicado em 1866, Crime e Castigo é a obra mais célebre de Fiódor Dostoiévski. Neste livro, Raskólnikov, um jovem estudante, pobre e desesperado, perambula pelas ruas de São Petesburgo até cometer um crime que tentará justificar por uma teoria: grandes homens, como César e Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História. Este ato desencadeia uma narrativa labiríntica que arrasta o leitor por becos, tabernas e pequenos cômodos, povoados de personagens que lutam para preservar sua dignidade contra as várias formas da tirania.


Personagens principais:

Rodion Românovitch Raskólnikov: Jovem estudante de direito, desiludido da vida por não ter dinheiro e, sobretudo, achar-se superior ao homem comum.

Pulquéria Alexandrovna Raskólnikov: Mãe de Raskólnikov.

Avdótia Romanovna Raskólnikov (Dúnia): Irmã de Raskólnikov.

Alena Ivanovna: Velha usurária assassinada por Raskólnikov.

Isabel Ivanovna: Irmã da velha usurária, também assassinada.

Sófia Siemionovna Marmêladov: Sonia era uma moça pobre e consciente que, por vários motivos, entregou-se à vida de prostituição.

Razumikine: Amigo de Raskólnikov e futuro marido de sua irmã.

Pedro Petróvitch Lujine: Pretendente machista da irmã de Raskólnikov.

Sr. Svidrigailov: Queria fazer-se amante da irmã de Raskólnikov.


O autor

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 11 de dezembro de 1821, no hospital onde seu pai, Mikhail Andriéievitch Dostoiévski, clinicava. Mikhail, apesar de imprimir uma disciplina severa à família, incentivava os sete filhos ao amor pela cultura. Em 1837, a mãe de Dostoiévski morreu precocemente de tuberculose. A perda foi um choque para o pai, que acabou mergulhando na depressão e no alcoolismo. Fiódor e seu irmão foram então enviados à Escola de Engenharia, em São Petersburgo. Em 1839, morreu o pai de Dostoiévski.

Dostoiévski engajou-se na luta da juventude democrática russa pelo combate ao regime autoritário do Tsar Nicolau I. Em abril de 1849 foi preso e condenado; em novembro do mesmo ano, acabou sentenciado à morte pela participação em atividades antigovernamentais junto a um grupo socialista. No dia 22 de dezembro, chegou a ser levado ao pátio com outros prisioneiros para o fuzilamento, mas, na última hora, teve a pena de morte substituída por cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde permaneceu até 1854.

A experiência abalou profundamente o escritor, que iniciou o romance Memórias da casa dos mortos, publicado em 1862. Alguns anos antes, Dostoiévski conheceu María Dmítrievna Issáieva, viúva de um maestro, com quem se casou em 1857. Retornou a São Petersburgo em 1859, dedicando-se integralmente a escrever, produzindo seis longos romances, entre os quais suas obras-primas Crime e Castigo (1866), O idiota (1869) e Os irmãos Karamazóv (1880). Morreu em fevereiro de 1881.

“O segredo da existência humana não está apenas em viver, mas também em saber para que se vive”.

Ganhei minha edição nesse box maravilhoso.