Acostumei a ter uma pontada forte de personalidade múltipla. Entrei para as aulas de teatro ainda cedo, assim como as de dança e mais tarde a música, e por um tempo o teatro musical, depois ainda a comunicação, quem sabe até a fotografia? Hoje todos se misturam e com a cola quente da palavra, são paixões interligadas. Ao longo dos anos e principalmente com o exercício da profissão de jornalista pude confirmar que, entre todos os meus amores, o teatro ainda é o mais invisível e (por que não dizer?) marginalizado.

A crença de que o público não chega é forte. No entanto, em tempos de extrema preocupação numérica, desfrutar da experiência do instante presente não seria um privilegio? Por questões de sua própria natureza o espetáculo teatral não consegue abarcar a mesma quantidade que um filme, por exemplo. O cinema, enquanto permanece como outra deliciosa forma de enxergar o mundo tem consigo a possibilidade de se espalhar em reproduções inúmeras, simultaneamente em milhares de telas e por quantos anos forem possíveis.

O teatro não. Ele pede a experiência, ele quer desfrutar o instante, reunir os corpos, encontrar os olhares. A experiência teatral não acontece sem o encantador encontre entre artista e plateia. Em palco fechado, em ruas abertas, em cenas clássicas ou em criações experimentais, a presença do ator e espectador torna-se fundamental. O teatro é um rito. Um instante em que nos permitimos submergir naquele único momento presente. E apaixonados que somos, persistimos, convidamos continuamente outros que possam também experimentar.

Enquanto rito, o teatro se dissipa pelo tempo, monta um retrato de sua época e se reproduz apenas com a presença da sociedade em que dialoga e interfere. Por algumas horas, nos permitimos a completa desconexão com a realidade que nos apita continuamente. Durante o espetáculo, observamos outra possibilidade daquilo que é real. Histórias contadas e a possibilidade do riso, do choro, do enfrentamento ou da revelação. Meses de montagem, leitura, ensaios, busca por imagens e muita repetição. É a certeza de que existem outros caminhos, outros tempos possíveis. Bom saber que a realidade concreta não é a única capaz de dialogar. Entre textos e cenas, cortinas e palcos, ruas e praças, o teatro permanece como uma das mais fortes possibilidades de fazer refletir, perceber novas ideias, pensar possibilidades e contar boas histórias. Subir ao palco é abrir caminho para que, através do que dizem os corpos, outras vozes ganhem espaço para dialogar.


Quem se interessar, escrevo sobre teatro para um blog no Correio Braziliense, por aqui: http://blogs.correiobraziliense.com.br/alemdacena/