Sonhei um dia ser Maria que desconhecia o esquecer dos sonhos, aquela que senta enquanto lhe sopram os cabelos e o sol parece apenas lhe querer beijar. Nãoplanejei estar onde vim, ainda assim, respiro quase aliviada com a certeza de reconhecer o instante. Lembre-se, nem toda a importância se resguarda no macro. Existem raridades em nossos pequenos universos. “O amor é raro”, diria o menino. Vai ver que é! Observava os cabelos alvoroçados e imaginava quem já fui antes mesmo de reconhecer quem sou. Na mão, a xícara cheia de café bem doce – ainda que adepta à melancolia, não me farto muito em sabores amargos. Eu pedia um outro copo de bebida e, exibindo os cabelos espessos, ele trazia. “Já adocei”, dizia. A língua se alvoroçava com a presença imponente dos seus sabores adocicados. Saliva. Enquanto isso, outro gole de café, como cheirava bem. Sobre os pés cruzados repousava um pequeno travesseiro listrado. Eu via as listras perdendo-se entre a pele e quase me acanhava. Mas não há motivos, todo domingo pertence aos instantes desavisados. O sol se punha e ele quase partia. Rabiscava os papéis fazendo um barulho imponente, rápido, sufocante. Eu observava, um tanto só, inerte.

A solidão é o princípio e o fim de toda poesia. Ainda que se sustente pelo amor, pelo afeto ou pela língua da presença em saciedade, toda palavra se mostrará fiel ao seu princípio árduo de demarcar em folha e tinta uma sensação constante de saudade. Do tempo que foi, do tempo que resta. Da ilusão que nos relaciona ao antes e da expectativa que nos agarra ao depois. Mostra-se o verso como princípio farto de tudo aquilo que nos comove e o fim apressado de tudo aquilo que nos corrói. Marca o receio do tempo, o desejo da pele, a frustração dos olhos, a constatação da verdade. Marca do que somos depois daquilo que precisamos ser. Rabisco da passagem do tempo. Continuaremos a rabiscar, ambos, entre traços e letras, enquanto for necessário o olhar externo sobre aquilo que nos embaraça as entranhas. Permanece sempre o acaso registrado do que nos parece invisível.

Era um instante quente de outra noite qualquer, os desejos, ainda que um tanto desgastados pela expectativa cansativa que nos ronda durante a espera, permaneciam inalterados. Lembro-me de olhar outra vez a janela enferrujada, mostrando lá fora a noite clara da lua cheia. Nesses tempos urbanos, até mesmo minha cidade com cheiro de céu, mostrava uma quantidade pequenina de estrelas, era preciso quase imaginá-las ao longe. É o que nos impulsiona, escutar os rabiscos, olhar ao longe. Você insiste no que? Afinal, é o que nos aproxima, a solidão compartilhada dos quartos quadrados em janelas quadradas que ornamentam prédios quadrados. É um exercício diário não deixar que nos enquadrem também os olhos, perspectivas, vontades e os próprios pés. Abri bem as janelas e inspirei o princípio básico que ainda me empurrava pelas calçadas, existe céu de todo jeito a toda gente, ainda que tentem lhe enquadrar. Olhei outra vez ao lado oposto à janela, dentro do quarto, ele ainda rabiscava. Insistência. É o que nos mata a fome de existir

Ver a cidade, andar o mundo a peito aberto e pés descalços. Fechar os olhos e respirar a própria insanidade que pulsa dentro de um corpo quase são. Ver o céu a todo tempo e esparramar sonhos, faltas, dúvidas e desejos pelo concreto. Acostumar-se ao sal da lágrima, esbaldar-se ao mel do riso e manter intacta a sutileza dos primeiros sonhos, sem deixar de deliciar-se com a aspereza que se forma em certos cantos da pele. Derrubar as próprias incertezas e certificar-se de que estar plenamente convicto não é uma possibilidade. Permitir o caminho da impermanência, sem deixar de reconhecer e tomar para si alguns pedaços recolhidos da calçada. Ver a cidade e constatar a existência de um sem fim de amores, falhas, caminhos, permanências e sensações. Perceber, por fim, a beleza inexplicável da imperfeita verdade que nos transborda. Ainda que com os pés a caminhar por entre duros barros, seremos um sopro.