Duas brasileiras, Duda Porto e Aryane Cararo, se uniram para redescobrir a trajetória mulheres que fizeram história no país. Elas querem que meninos e meninas leiam o livro e cresçam sabendo que todos podemos ser heróis e heroínas. Para Duda Porto, a igualdade nasce desde cedo e as transformações compiladas nesse livro vão mostrar para cada leitor a importância da própria voz.

Agora, oCiclorama traz uma entrevista completa com uma das autoras de Extraordinárias – Mulheres que revolucionaram o Brasil, da Companhia das Letras (logo mais publicamos também o papo com a Aryane).

A entrevista está incrível de ler. A ideia é mostrar o quanto a representatividade literária, desde a infância, pode colaborar para o desenvolvimento de mulheres mais fortes e confiantes. Com o objetivo de trazer à tona a história de grandes brasileiras que impactaram a história do país, as autoras  se uniram para escrever. O resultado é o livro Extraordinárias – Mulheres que revolucionaram o Brasil.

“Ser e existir no Brasil atual é um exercício de resistência, mas temos ai uma nova geração carente desses exemplos de luta e transformação. Ser forte é também ter um olhar mais profundo para a nossa história, que merece e deve existir na vida dos jovens como fonte de inspiração”, destaca a autora.

O objetivo de Duda Porto é divulgar a trajetória de nomes importantes. Os nomes vem de diferentes etnias e regiões, que não costumam aparecer nos livros.

 

As páginas contam com o desenho de grandes ilustradoras para acompanhar o relato de força que cada um dos personagens históricos mostrou para defender seus ideais. Com linguagem leve e fluida, o livro pode ser apresentado aos mais novos, curtido pelos adolescentes e apreciado pelos adultos.


Confira aqui entrevista completa com Duda Porto

Como surgiu a ideia de escrever o livro?
A ideia de escrever esse livro nasce de um desejo latente de proporcionar um material informativo e inspirador para todas as idades. A representatividade do feminismo ganhou força na internet mas pouca base nas salas de aula. É simplesmente impossível compreender o atual momento da força feminina sem um olhar verdadeiro para o passado. Só assim a nova geração vai ter as ferramentas necessárias para construir o presente e o futuro. Só assim vamos quebrar paradigmas e construir novas histórias com tolerância, empatia e inclusão, de forma extraordinária.

Mergulhamos na história de cerca de 300 mulheres e chegar nas que estão no livro foi a tarefa mais difícil de todas. A lista é infinita e as perfiladas não são mais importantes do que todas as outras ou do que uma jovem leitora que tem o livro em mãos. Afinal, importância é um conceito muito amplo, subjetivo e controverso. As que não nasceram no Brasil mas tiveram um impacto imensurável ganharam um capítulo especial: “Abrasileiradas”. (Duda Porto)

Idealização do projeto

As autoras: Aryano Cararo e Duda Porto

O que te impulsionou a pesquisar a história dessas mulheres?
A igualdade nasce desde cedo. As transformações compiladas nesse livro vão mostrar para cada leitor a importância da própria voz. A pluralidade do nosso país está entre os fatores que mais me impulsionaram a mergulhar nessas histórias. É emocionante entender como a riqueza cultural e geográfica, por exemplo, foi determinante para cada mudança que nos leva para uma crescente igualdade de gênero.

Depois de toda a pesquisa e de todas as figuras importantes que encontraram, como foi a seleção para aquelas que entrariam no livro?
Essencialmente nós priorizamos trajetórias que simbolizaram marcos históricos nas mais diversas áreas de atuação, como direitos humanos, saúde, ciência, educação, cultura e esportes.

Exemplos como a bióloga Bertha Lutz, não poderiam ficar de fora. Contemplar todas as regiões do país foi outra prioridade. A receptividade de Sônia Guajajara, a maior líder indígena do Brasil, ao projeto, é algo que continua nos emocionando. Mulheres camponesas, mulheres nordestinas, são tantas narrativas que representam a imensidão do nosso país.

Inspiração para a escrita

Como foi o processo de escrita para o livro e como costuma ser o seu processo de escrita?
A pesquisa foi chave para a construção do livro. A internet proporciona muitas fontes importantes mas um projeto como este é também uma imersão offline, em bibliotecas e acervos. Entrevistas com familiares, historiadores e pensadores em geral tornaram o processo ainda mais instigante.

Reportar e contar histórias com um olhar jornalístico sempre fez parte do nosso cotidiano, mas cada parágrafo foi um aprendizado. Cada perfil procura apresentar as raízes, educação, sociedade, luta e mudança promovida por cada mulher.

Ilustração do livro: Laudelina de campos melo por laura athayde

O livro pode ser considerado uma grande reportagem literária?
Sim. Nós duas somos jornalistas e essa vivência nos ajudou a formatar um livro mais informativo e abrangente possível para jovens. A obra conta com inúmeros para textos que ampliam a compreensão de todo período histórico coberto pela publicação. Por exemplo, ao aprender sobre Madalena Caramuru, a primeira mulher alfabetizada no Brasil, você vai ter acesso a um levantamento da educação indígena do século XVI até os dias de hoje.

A sociedade atual já é menos machista? Podemos dizer que as produções artísticas e outros trabalhos feitos por mulheres já tem seu espaço?
Quantificar o machismo não é tão importante, e sim ele deixar de existir, assim como vários outros preconceitos que transparecerem nessas histórias. Na produção artística, de alguma forma, as mulheres tem até um pouco mais de alcance, mas temos um longo caminho a percorrer.

Ainda temos que quebrar muitos tabus em relação a sexualidade, por exemplo. Em contraponto, a presença de mulheres negras na ciência é mínima no Brasil, embora o país tenha 52% de negros. Já as transexuais são praticamente excluídas do mercado de trabalho, com raras exceções.

Identificação e realidade

Você se identifica de alguma maneira com aquelas mulheres? 
Lembro que pouco tempo antes de escrevermos o projeto no Catarse, estava no Rio de Janeiro e fui conhecer a Casa Nem, um centro para pessoas em situação de vulnerabilidade social idealizado pela Indianara Siqueira, uma das mulheres perfiladas em “Extraordinárias”.

Foi e sempre será uma grande fonte de inspiração para mim. Sou homossexual e a história da Felipa de Souza, a primeira mulher a assumir sua orientação sexual nas Américas, no século XVI, naturalmente traz um pouco de mim entre as páginas do livro. Sempre me dediquei às artes visuais e a história da Niède Guidon, com as preciosas pinturas rupestres da Serra da Capivara, é uma das minhas preferidas.

A linguagem do livro é bem leve e fluida, com que público vocês buscam dialogar?
Sim, é uma linguagem bastante acessível, que pode ser facilmente apresentada para os mais novos, curtida pelos adolescentes e apreciada pelos adultos. Um glossário especial acompanha o livro, detalhando termos e palavras-chave para melhor entendimento do texto. Chegamos a estudar uma linguagem mais informal, que não é muito nosso estilo. O resultado está muito mais ligado a uma apresentação de acontecimentos históricos que emociona a cada página.


Livro

Extraordinárias – Mulheres que revolucionaram o Brasil

Autoras: Duda Porto de Souza e Aryane Cararo

Editora: Seguinte (O selo jovem da companhia das letras)

Ano: 2017

Páginas: 208


 

 

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