Era só mais um tantinho de nada, pensativo e perdido em um instante qualquer. Aos domingos, é isso o pensamento sem crença, sem sonho, um tantinho de nada trajando uma alma bem vestida e agasalhada. Era o fim do início de todas as possibilidades, sem a vantagem de olhar em frente e encher o peito munido de todo o tempo e todos os caminhos e todas as tentativas e todos as portas escancaradas do mundo. E ali no instantinho de nada, a possibilidade de rasgar todos os papéis. A despedida dos desencantos e a tentativa de manter viva a crença nos antigos sonhos.

E qual seria a outra possibilidade? Eu nunca gostei de lugares rasos. Com a cabeça mergulhada na espuma de persistência que se tornava um pouco mais rala a cada ano. Não, não queria sair do mergulho profundo e ainda menos juntar-me aos olhos que se recusam a viver submersos em si. Bati a porta, e outra e mais outra. Sorrindo, aprendi a sorrir. Silenciando, aprendi a silenciar. Os domingos de sol são quase raros.

Domingos de parque

O tempo escorria pelos dedos sem a menor possibilidade de deixar-se segurar. Lembrava Quintana, tão bom morrer de amor e continuar vivendo. Às vezes o tempo parece querer engolir a gente e espremer as entranhas e esquentar os rostos e fazer esquecer todos os mais bonitos quereres. E me permitia escorrer pelos olhos e perder uns bons bocados de horas a olhar o laguinho cheio de patos.

Ou marrecos? Nunca sei. Aos domingos faziam um barulho grande que não incomodava e me acompanhavam ali na mesinha de concreto dos banquinhos de concreto sujos pelos anos e pelos bichos. E me acompanhavam ali na árvore de sempre, na terrinha batida que pegava no pé e na grama fresquinha que dava vontade de fechar os olhos.

E respirava fundo outra vez, enquanto distraía os olhos naquele céu maior do mundo e nas cores que dançavam pela frente. E clicava. Procurando outras gentes, outros risos, outros pedaços bonitos de céu. E rabiscava um verso besta no papel, antes que a vida se tornasse exageradamente real. Fugir do tempo é a fantasia mais doce que já provei. E ainda assim, não tornaria possível desacreditar. Olhava ali na frente as mãozinhas dadas, as toalhas estendidas no chão dos domingos displicentes, os doces espalhados entre os quadradinhos que se misturavam em cor. Não tornaria possível desacreditar.

Cansei de deixar aquela porta breve e antiga trancada, abri, respirei fundo e liguei de novo a luz daquela tela. O dia todo? Mas os olhos da gente foram feitos para dançar no sol. Respirava. Não deixe de criar, não deixe de criar. Sim, ainda era possível a criação. Revirei na cama a noite toda tentando entender quem era aquela gente. É possível sorrir também e silenciar. Um susto de encontro aos olhos, pois ainda assim, não teria deixado sumir a possibilidade de iniciar. Permiti. Ainda que de ponta cabeça, ainda que de encontro à crença, ainda que esconderijo, permiti. Explodíamos entre a própria novidade ingênua de não se deixar acovardar.

Entre tempos

Compartilhar o tempo, dividir o novo, o velho, o desejoso, o doce, o amargo, o riso, o desespero e o inevitável. E então? Aos domingos, rasgar outra vez os papéis, é que hoje li Drummond, e dizia assim, pois sossegue, o amor é isso que está vendo, segunda-feira ninguém sabe o que será. É o que sempre fazem, me sopram na cara os versos certos. Mas vai ver que todo verso é certo a todo tempo, é pra isso que fizeram a poesia, a gente lê e suspira e ouve uma música brega e arruma outra vez os cabelos, quando vê, acha que escreveu.

O que seria depois, então? Tantas portas. Dá vontade de expandir o tempo e abrir tudo e ver tudo e ser o concreto em tudo. Respira. Dá vontade de explodir o tempo e fechar tudo e ser o andarilho maleável e senhor de nada. Ainda assim, um tantinho de tantos sonhos. Deixaria a alma nua? Talvez. Tão bom morrer de amor e continuar vivendo.


Leia mais textos autorais aqui no site:

http://ociclorama.com/category/palavra-em-cena/