Conheci recentemente duas pequenas pérolas de Antonio Skármeta cheias de poesia. Um pai de Cinema (que inspirou O filme da minha vida) e O carteiro e o Poeta (que inspirou filme homônimo) foram adaptados para as telas com toda a experiência gostosa de vivenciar os ambientes cotidianos criados pelo autor. Os dois romances trazem histórias simples, criadas entre a poética dos amores, decepções, amizades e reviravoltas familiares.

Durante as duas leituras, tive a sensação de ser transportada para pequenas cidades escondidas do conturbado meio urbano, com histórias de pessoas que emocionam ao manter a caminhada constante e os desejos humanos sempre vivos. O primeiro filme, inspirado em O carteiro e o poeta, é de 1994 e rendeu a indicação para cinco oscar.

Cena de: O filme da minha vida, inspirado no livro Um pai de cinema

Um pai de Cinema, Antonio Skármeta

Com apenas 109 páginas, Um pai de cinema (2010) é uma pequena fábula que transporta seus leitores para uma aldeia cheia de encantamentos. É uma história íntima, permeada por sonhos e sensações, despertando ternura por sua simplicidade e eficácia em construir personagens empáticos e cheios de conflitos. Gosto da leitura, que é rápida, fluida, cheia de cheiros, sons e imersões. As imagens de uma casa antiga com madeira que estala, o cheirinho da comida feita na hora, o odor dos homens que transitam entre o campo e a cidade, o movimento dos lençóis no varal. O ambiente que se cria é vivo e nostálgico.

“Componho minha vida com os materiais rústicos da aldeia: o som aflito do trem local, as maçãs do inverno, a umidade que sinto na casca dos limões tocados pelo orvalho da madrugada, a paciente aranha na escuridão do meu quarto, a brisa que balança as cortinas”.

Ao longo das páginas, o cheiro de café coado se mistura aos sons que penso escutar ao ler sobre a caminhada de cada personagem em suas pequenas casas em um espaço montanhoso e perto de moinhos. A imagem que se cria é parecida com a fotografia produzida por Selton Mello em O filme da minha vida. São instantes de uma viva melancolia, cheia de saudade, cheiro de mato em cidade pequena e descobertas tão individuais e universais em sua essência. Mostra-se o amor, a culpa, a surpresa e o perdão. Mostra-se o lado poético que guardamos ao sentir cada sensação que nos torna humanos.

O Carteiro e o Poeta, Antonio Skármeta

Um carteiro apaixonado que tem a ajuda de um dos maiores poetas de seu tempo para conquistar sua amada. É essa a premissa do livro O carteiro e o poeta (1985), que consagrou Antonio Skármeta como um dos autores mais representativos da nova literatura latino-americana. Antes mesmo de iniciar a leitura me apaixonei pela capa, pela premissa e pelas palavras. Amo poesia, cartas, flores e boas histórias, e eram esses alguns dos temperos essenciais do romance cheio de diálogos descontraídos e uma relação inusitada.

Adorei passear pelas páginas e conhecer Mario Jiménez, o carteiro responsável pela correspondência de Pablo Neruda. Tive vontade de ser aquele carteiro, de pedir conselhos ao poeta e de conquistar amores inspirados por sua poesia. A amizade se consolida a cada nova entrega de correspondências e o grande poeta, famosos e quase inatingível em seu tempo, se vê tragado e conquistado pela insistência despretensiosa do carteiro que quer também enxergar o mundo com poesia.

A turbulência política do Chile na década de 1960 vira pano de fundo para os acontecimentos e a história fictícia de um vencedor do Prêmio Nobel que vira conselheiro amoroso pode conquistar e empatia do leitor de todas as idades. Já doente e sem poder transitar por sua antiga e querida cidade, Neruda pede ao amigo que grave os sons importantes de Ilha Negra para que possa recordar sua própria história. O barulho do mar, o bater dos passos, o canto dos passarinhos, a reunião da poesia cotidiana que, por vezes, deixamos de perceber.

Entre familiares, amores e amigos, com esses dois romances, Antonio Skármeta consegue mostrar a poética confusa e desajeitada do cotidiano, provocando um riso doce e esperançoso ao fim das leituras. Caminhamos entre os dias e, se pudermos fazer poesia das próprias dores, assim será melhor. Há humor, drama e lirismo na medida certa.


Sobre o autor

Antonio Skármeta acalentava o sonho de ver uma de suas obras transcritas para o cinema brasileiro. O desejo do embaixador e escritor chileno de 72 anos acabou cruzando com as aspirações do ator e diretor Selton Mello. Nasceu em 7 de novembro de 1940, em Antofagasta, Chile. Graduado em filosofia e literatura, romancista, dramaturgo, diretor e roteirista cinematográfico e de TV, é considerado um dos principais escritores contemporâneos. Seus romances e contos tem sido traduzidos para mais de 25 idiomas, muitos deles reeditados permanentemente. O curioso é que a consagração literária lhe chegou através do cinema.

No final da década de 60, publicou o seu primeiro livro, um volume de contos intitulado El Entusiasmo . Em 1969, editou Desnudo en el Tejado. Entretanto dedicou se ao ensino e lecionou literatura em Santiago do Chile e em Washington. Em 1983, começou a escrever Ardiente Paciência , obra que originou uma rádionovela, uma peça de teatro e um filme. Já em 2004 lançou um livro de homenagem ao poeta chileno Pablo Neruda intitulado Neruda por Skármeta. Para além dos galardões obtidos com o filme Ardiente Paciência , Antonio Skármeta ganhou diversos prémios literários, sendo de destacar, em 1996, o Livro de Ouro em Portugal graças a O Carteiro de Pablo Neruda , e em 2003 o Prémio Planeta, em Espanha, com El Baile de la Victoria .