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Foto: Ico Oliveira

O espetáculo resulta de um processo de questionamento e criação trabalhados por Maíra Oliveira, que tenta responder importantes perguntas sobre o ofício teatral em Quando o coração transborda. A atriz é uma das integrantes do grupo Esquadrão da vida, um dos mais tradicionais e importantes grupos do teatro brasiliense. O criador do grupo e pai de Maíra, Ary Pára-Raios, foi um dos grandes responsáveis por levar arte aos espaços urbanos desde a década de 1970, com muita música, cor e acrobacia. Um pedaço desta grande história é contada no atual espetáculo, primeiro monólogo da atriz. Maíra lembra que só chegou ao espetáculo porque ele traz uma história muito forte de amor ao teatro, a história do Esquadrão.

A peça tem mudado constantemente a minha vida, em muitos aspectos. Sempre tive o desejo de contar a história do Esquadrão da Vida e, só depois de muito tempo, entendi que quem devia fazer isso era eu. Antes achava que tinha que ser o grupo todo, mas depois compreendi que era uma necessidade minha. E foi estranho pra mim, porque nunca gostei muito de monólogo, sempre fui de grupo. Sempre. E continuo sendo, por mais que, no momento, esteja sozinha em cena. Tem sido um aprendizado constante”, afirma Maíra. Para a atriz, o espetáculo é um turbilhão de sensações e cria uma grande força no palco. A conexão com a plateia, seja ela grande ou pequena, tem se mostrado outro ponto forte durante as apresentações, com espectadores envolvidos e emocionados.

O espetáculo é intimista criada para ser apresentada em pequenos espaços e é regada por lembranças de quem cresceu e viveu no meio teatral. A codireção fica por conta de João Antonio de Lima Esteves e a direção musical é do violeiro Roberto Corrêa. A percepção de Maíra com a relação entre seu pai e mestre com o seu trabalho artístico, inspirou a criação do texto, que tem por objetivo reverenciar a história do grupo sem deixar de pensar nos novos caminhos. Estão presentes na montagem questões que envolvem o trabalho diário do ator e discussões a respeito do próprio fazer artístico.

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Foto: Humberto Araújo

Entrei na Escola de Música de Brasília por causa do espetáculo e comecei a tocar viola caipira por causa disso. Me debrucei sobre a história do Esquadrão, que sempre foi tão ligada com a minha própria história, refleti exaustivamente sobre minha relação com o meu pai e mestre, o Ary Pára-Raios, que criou o grupo. E isso me fortaleceu como atriz, porque através do meu trabalho e da própria peça, eu fortaleci ainda mais minha visão sobre o fazer artístico e sua importância para o mundo”, conta a filha do mestre Ary Pára-Raios.

A história vai além das questões que permeiam a relação entre pai e filha e falam das linhas tênues que separam atuação e realidade. “Eu digo que quem não viu a peça não me conhece direito – e não porque conto uma história real ou porque sou eu, Maíra, em cena – mas porque ali estão as questões mais fortes da minha vida: será que é importante, necessário, fazer Arte nesse mundo tão doido? Como faço para seguir acreditando nos meus sonhos dentro de uma sociedade que privilegia muito mais o ter do que o ser? Como separar a minha escolha profissional com a minha vida pessoal – é possível? Como posso contribuir para que a gente viva em um mundo mais equilibrado e igualitário?”, questiona a artista. A peça possibilita que Maíra provoque tais questões e, ao mesmo tempo, se fortaleça como atriz e mulher.

Maíra conta que Quando o coração transborda tem uma estrutura dramática e dramatúrgica que está consolidada e, ao mesmo tempo, como o trabalho de ensaio continua sendo feito com aperfeiçoamento do trabalho musical e de atuação, a encenação vai ganhando mais força e intensidade.

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Confira um pouco mais da carreira de Maíra e do trabalho no espetáculo Quando o coração Transborda, em entrevista com a atriz:

Qual a importância de Quando o coração transborda na sua vida e carreira?

. Entrei na Escola de Música de Brasília por causa do espetáculo e comecei a tocar viola caipira por causa disso. Estudei a fundo sobre a história do Esquadrão, que sempre foi tão embricada com a minha própria história, refleti sobre minha relação com o meu pai e mestre, o Ary Pára-Raios, que criou o grupo.  E isso me fortaleceu como atriz, porque através do meu trabalho e da própria peça, eu fortaleci ainda mais minha visão sobre o fazer artístico e sua importância para o mundo. Eu só cheguei até o “Quando o Coração Transborda” porque tem uma história muito forte, de amor ao teatro, por atrás de mim, que me sustenta. Essa é a história do Esquadrão.

11081177_798345356887406_2789651421515299891_nSempre fui muito disciplinada mas descobri, com essa peça, que tenho disciplina inclusive, para ensaiar sozinha, o que para mim foi uma grande surpresa. As discussões que a peça me provoca são muitas e vão muito além da minha relação com o meu pai. As linhas tênues que separam a atuação e a realidade. Estar em cena, no aqui e agora, sendo verdadeira, mas atuando (embora eu tenha cá pra mim que as melhores atuações são as verdadeiras, ainda que não sejam baseadas em fatos reais). A peça tem me possibilitado provocar essas discussões e me fortalecido como atriz e mulher. Tem sido uma experiência transformadora de várias maneiras.

 

Que sentimentos a peça costuma despertar em você enquanto no palco? E na plateia?

Não tem sido fácil. Às vezes fico em dúvida se deveria continuar encenando a peça. É que me sinto muito sozinha, mesmo que tenham outras pessoas envolvidas (e elas são fundamentais para que eu continue, na verdade). É um turbilhão de sensações, porque sinto uma força descomunal quando estou no palco. Quando eu estou em cena essa sensação tem vindo pra mim com muita potência. Eu sempre me sinto assim quando estou em cena (seja na rua ou no teatro), mas com essa peça tem sido diferente. Eu sinto que estou fazendo o que deve ser feito. Eu preciso fazer, é maior do que eu. Quando estou em cena e olho pra plateia, esteja ela muito cheia ou com poucas pessoas, sinto uma conexão tão forte que não posso descrever em palavras. E a plateia tem ficado sempre tão envolvida e emocionada, que ainda estou tentando entender as coisas, até hoje, depois de algumas temporadas… Quando acaba a peça, muita gente me abraça de um jeito tão forte e tão emocionado que eu acabo ficando meio sem jeito… Me escrevem textos lindos (isso mesmo, textos!).

As coisas que falo na peça fazem parte do meu cotidiano e não é fácil vivê-las. Então isso acaba se refletindo no meu estar em cena. Ao contrário do que muitos possam pensar, quando estou em cena com esse trabalho não fico pensando no meu pai, com saudades. Isso eu deixo pra pensar na minha casa, na minha vida do dia a dia. Ali, procuro viver o que falo em cada pequeno gesto, em cada breve momento ou em cada ação. E acho que a reação do público só tem me confirmado que estou no caminho certo, ainda que às vezes eu me sinta solitária demais.

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Como tem sido apresentar várias temporadas? A peça vai se transformando?

O natural pra mim é me apresentar sempre. E sempre fico achando que me apresento pouco. Eu adoraria não parar. Acho que aqui em Brasília as peças estreiam e acabam ficando pouquíssimo tempo em cartaz, por várias razões. Com o Esquadrão da Vida vivo uma experiência diferente, procuro estar sempre em cartaz. Agora, dentro do teatro talvez seja um pouco mais difícil, porque os custos são altos e ninguém tem dinheiro para custeá-los. A peça tem uma estrutura dramática e dramatúrgica que está consolidada, não sinto vontade de mudar nada. Ao mesmo tempo, como continuo sempre ensaiando e trabalhando, aperfeiçoando o trabalho musical e de atuação, ela vai ganhando, no meu ponto de vista, mais força e intensidade. Na medida em que eu vou adquirindo mais técnica – vocal, corporal, musical – eu sinto liberdade na minha atuação e isso vai ganhando mais força através das temporadas. Então o público que já viu a peça não vai ver uma peça tão diferente se for novamente. Ao mesmo tempo, muitas pessoas já foram ver algumas vezes, gostam de repetir a dose e parecem, pelos seus depoimentos, compreender ainda mais o que está sendo encenado.


pqGrupo_Esquadrao_da_Vida19Esquadrão da Vida – Fundado em dezembro de 1979, por Ary Pára-Raios, o Esquadrão da Vida foi pioneiro na abordagem de temas como o resgate e a valorização da cultura popular, a denúncia de exclusão de uma parte importante da sociedade dos espaços culturais tradicionais, a conscientização ecológica, dentre vários outros temas que ainda hoje ocupam os debates no mundo. Em sua linguagem, incorpora elementos expressivos das festas populares e de saltimbancos, como acrobacia, música e dança.