Pequenos contos de ver o Mar, iniciados entre a maresia e a vontade de permanecer sempre com o sol e o sal na pele.

Inicie o preparo por dentro, pequena, mas não te demores a ponto de não mais saber partir. Tome teu tempo, ferva toda a água, escolha bem as ervas, misture os sabores, adoce ao ponto que te faça submergir.

Deixe que o preparo te aqueça todo o corpo, desde os olhos até os pés. Faça-te os dias em prolongado conforto, deixe também aquietar os olhos. Conduza bem firme – e vagarosamente – as próprias vontades, e em seguida, corra sem medo de perder por uns instantes o próprio porto por somente olhar para frente.

Então retorne ao porto, pause o barco – ainda que desajustado – e aguarde que pare o vento, deixando-lhe segurar outra vez o que guardou de papéis. Amasse e jogue-os de uma vez ao mar ou preencha todos até que não te reste mais um pingo de pensamento qualquer. Pois eu também não sei ao certo a receita boa, pequena. Se soubesse, te juro, não me largaria mais ao amor sem saber que me esperaria um barco pronto ao esquecimento.

Roer a pele até mostrar os ossos e então tampar a ferida que se forma, com um pedaço qualquer bem branco de algodão. Fazer curativos, assim invasivos e pequeninos, até tampar os buracos todos do corpo e deixa-lo impecável como parecem aqueles outros corpos. Mas um dia desmancham.

Contos de cobrir vazios

Curativos de pano não cobrem os vazios criados entre mordidas arreganhas e roídas, assim, alvoroçadas. Deixava-os todos abertos, expostos, enquanto fingia que os cabelos brilhantes pudessem tomar atenções e esconder todas as cicatrizes. E tomam.

Toda a gente caminha perdendo os olhos entre pelos e cabelos enquanto a gente esconde as feridas como quem nunca foi capaz de se deixar sangrar. Olhava desconfiada, falando baixinho, antes que toda aquela gente lhe encontrasse os olhos e fosse possível, enfim, lhe enxergar. Olhei logo ao lado e o par de olhos, apenas um, sorria feito menino que nunca viu neve quando o frio começa a chegar.

Sorria tanto que também sorri. Falei alto, arregacei as mangas, mostrei as feridas, desencolhi a barriga, deixei o peito estufar. Tinha gosto de hortelã. Gostava de tomar o chá sentindo o cheiro lhe invadir as narinas, grudar na pele, umedecer os olhos. Sentava com o chá enquanto observada toda a gente ir embora. Toda a gente sempre se vai. Mas agora a gente sorria e esquentava o corpo com a xícara que esfumaçava e observava a fumaça saindo enquanto os olhos descansavam um pouco do tudo o que despedaçava no mundo.

Entre contos e saudades

Toda a gente ia embora e eu me lembrava que toda saudade é uma espécie de velhice. Soltava os dedos entrelaçados, nunca gostou que lhes prendessem as mãos, gostávamos de ir lado a lado, éramos soltos, Maria. Queria te chamar para ver o mundo. O povo corria, Maria, e gritava enquanto a gente ia sem sobressaltos.

Gostava de aprender bem os teus olhos pequenos, o castanho escuro, a sensação de quem já viu um pouco além do que podia. Gostava de olhar com cuidado, gravando cada pedaço que impulsionava qualquer pequena sensação. Olha nos meus também, Maria, não quero que seus olhos, quase frágeis, se deixem levar pela multidão.


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