A verdade é que era desconhecido de prazeres até então, Maria. Não por não tê-los, mas por não saber que os tinha. Ou por saber que os tinha com tamanha intensidade que acostumei-me a substituí-los pelo medo. Tu não sabe, menina, mas a experiência de qualquer prazer apavora aqueles que andam carregados de culpas de si. Reconhecem-se como gente mansa por demais, e a partir desse reconhecimento, passam a se sentir culpados. Não sabe que a doçura em excesso vira fardo? Ela escorre pela pele, sem aviso prévio, e te faz grudar no próprio corpo. Corpos presos sentem-se culpados. E assim, esse tipo de gente só consegue se desprender após conhecer gente que tenha os olhos cheios de mundo, que consegue libertar qualquer criatura, excessivamente doce, da culpa pelo prazer.

A culpa é uma espécie de fome constante por algum antigo sentimento que lhe foi tomado, Maria. A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza.

Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio, impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, Maria, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece e em seguida, a gente anda de mãos dadas, em silêncio, com a solidão. A pele dela é macia de um jeito que nem sei lhe dizer.

Lembro-me, e gostaria dizer que vagamente, mas me lembro com força e avidez, do tempo em que meu estômago se sentia corroído pelo silêncio. Como se estar só fosse uma espécie de quarto escuro e arredondado, de onde eu não fazia a mais remota ideia de como sair. Lembro de abrir as cortinas e olhar pela janela com os olhos fixos em algum ponto perdido da imensidão. O ar frio da noite alisava a minha pele, como uma porção de dedos macios e delicados. Talvez, solta entre o silêncio palpável das noites, fosse tu, Maria, a criatura mais acostumada às horas sós, dentre todas as criaturas. Talvez eu também gostasse delas. E talvez, isso tudo fosse completamente agradável, há que se saber escutar o pulso firme e suave do silêncio.