Sendo uma das escritoras mais aclamadas da literatura brasileira e importante expoente para a representação literária da mulher, Clarice Lispector desperta encanto e inspiração em leitores das mais diversas idades. Conhecida por trabalhar de maneira profunda as características psicológicas de seus personagens, Clarice tinha predileção por protagonistas femininas, criadas com a riqueza de seus sentimentos, dúvidas e vivências. A inovação literária e o mergulho no universo das mulheres foi, e ainda é, ponto de inspiração para peças de teatro, estudos acadêmicos, livros e até espetáculos de dança. É o caso de Clarice Lispector em Movimentos, criação do grupo Azzo de dança contemporânea.

o se debruçar sobre o universo feminino de forma minuciosa e conscienciosa, Clarice criou personagens femininas complexas. Através de seu estilo de escrita pessoal, ela estabeleceu um padrão mais complexo para a criação de personagens femininas, que a partir de então, seriam mostradas com seus anseios e profundidades.

Clarice entre seus livros

“E ela não passava de uma mulher…Inconstante e borboleta”. Nesta frase e em tantas outras,Clarice Lispector (1920 – 1977) conseguia passar a densidade de uma mulher que sentia e retratava o cotidiano, o feminino e tantos outros temas psicológicos de uma forma única. Temas estes tão imortais quanto ela e suas letras. Nascida na Ucrânia, mas naturalizada brasileira, mais especificamente pernambucana, Clarice tornou-se uma das mais importantes escritoras do século 20. Não à toa, continua a inspirar artistas, que buscam adentrar em seu misterioso e profundo universo.

Clarice Lispector em movimentos

foto: Emilia Silberstein

A coreógrafa do espetáculo de dança contemporânea, Jana Marques, conta que sempre busca temas que lhe despertem sensações para produzir seus trabalhos e gosta de criar em cima de textos e poesias. A obra de Clarice Lispector lhe despertou interesse por ser permeada por sentimentos e textos viscerais. No primeiro ato, os bailarinos entram no palco para mostrar através do corpo um resumo dos principais pontos da obra da escritora e de seu mergulho no universo feminino. “Eu me inspirei nos romances Perto do coração selvagem e Água viva. Não retrato nenhum dos romances, mas me inspiro neles para mostrar esse lado íntimo das mulheres em busca de seus desejos, vontades, anseios”, afirma. A ideia é reviver nos palcos o delicado e brutal universo escrito pela autora.

Os bailarinos também tiveram que conhecer mais o universo de Clarice, pesquisar sua obra e encontrar trechos favoritos para inspirar o trabalho no palco. Jana Marques lembra que escolheu a autora por sua importância no que se refere às mulheres de seu tempo e até os dias atuais. “Ela escreveu para mulheres em uma época que elas não tinham voz, viviam sob um comportamento ditado por uma sociedade patriarcal. Clarice descreveu os comportamentos mais íntimos daquelas mulheres e seus desejos reprimidos”. A autora teria sido, desta maneira, uma porta-voz para tantas vozes femininas silenciadas em sua época.

Em dois atos, a diretora fará um tributo revivendo a grande representante do delicado e também brutal universo feminino. Lispector, revolucionária para sua época, será citada em textos, movimentos fortes e impactantes executados pelos dançarinos, objetos cenográficos, entrevista pessoal, poesias gravadas e em obras que não são tão famosas. A ideia é mostrar uma Clarice nem sempre acessível a todos. “Eu quis sair do comum. Quando comecei a pesquisar a escritora, vi que existem muitos contos seus ainda pouco conhecidos. Foram estes contos que quis trazer para a dança, para os palcos”, relata Jana Marques, que assina o espetáculo como diretora e coreógrafa.

Sobre o espetáculo

foto: Emilia Silberstein

São duas horas de espetáculo divididas em dois atos que buscam envolver quem está na plateia e também quem interpreta. Os bailarinos vão mostrar, por meio da dança contemporânea e de textos pontuais, um pouco da vida desta escritora tipicamente brasileira. No primeiro ato, estão presentes o feminino, as relações familiares nas décadas de 40 e 50 e a submissão da mulher perante a sociedade. Os temas serão encenados e mostrados em ações que valem-se, por exemplo, de objetos como uma mesa, pratos giratórios em analogia ao tempo e de outros acessórios que enaltecem os costumes da época. Na pele de Lispector, a atriz e bailarina Juana Miranda vai, além de dançar, recitar trechos de crônicas de Clarice.

Já no segundo ato, o foco serão três contos ainda pouco conhecidos da escritora. Um deles é Onde Estivestes de Noite, do livro homônimo, que aborda temas como prostituição, bigamia, homossexualidade e assassinato. Neste momento, uma dança andrógina tomará conta do palco. Já na sequência, a obra A Via Crucis do Corpo vai tomar forma através de interpretações de contos que englobam O Homem que Apareceu e Ele Me Bebeu. De uma maneira densa, crítica e crua, o corpo em ação falará do bígamo e de sua aceitação seguida de punição pelas próprias mulheres. Ainda, o espelho, considerado por Lispector um reflexo da beleza natural  das mulheres, terá um papel importante nos tablados. “Clarice gostava muito de trabalhar o espelho, neste sentido de se perceber, se ver, da aceitação como somos. Já no Ele Me Bebeu falamos da trapaça, do ato de passar a perna”, explica Jana Marques.

A peça contará ainda com trechos da emblemática entrevista que Clarice Lispector concedeu em 1977 e que só foi divulgada após sua morte, 10 meses depois da gravação.


Serviço:

Espetáculo: Clarice Lispector em Movimentos

Dias 3 e 4 de março (sexta e sábado), às 20h, e 5 (domingo), às 19h.

Local: Teatro da Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul Qd 4)

Ingressos: R$ 10 (meia-entrada)

Não recomendado para menores de 14 anos.

Informações: 3206-6456.

Segunda temporada:

Dias 1º (sábado), às 20h, e 2 de abril (domingo), às 19h, no Teatro Sesc Garagem (713/913 Sul)

Ingressos: R$ 10 (meia-entrada)

Não recomendado para menores de 14 anos

Informações: 3445-4401