Calçou então os sapatos novos nos pés antigos. Os dedos frios de Maria, viciados em caminhar pelas mesmas calçadas. Buscava entre tantos meios-termos o exagero faminto do princípio que lhe encontrara antes. Para onde vão todos os começos quando a gente se entrega ao ponto sem gosto que se deixa firmar apenas pelo fim? Calçou então os sapatos de antes na tentativa quase ingênua de fazê-los aprender a  não mais andar para trás. Vários caminhos! E assim, com pés novos empoeirados pela terra do tempo, quero mergulhar pelas janelas e respirar o vento seco que colore o céu por entre nuvens de toda a cidade. Sentir bem fundo a saudade de enfiar os pés na areia e balançar o corpo pelas ondas a me beijar. Enquanto isso, fechar os olhos e saber que quando levanto as pálpebras arremesso todos os problemas para aquele lado a flutuar. Por cima. E depois, devorar as nuvens em formato de espuma, bichos ou qualquer outra coisa que me faça seguir em frente, sem deixar de respirar. Minha cidade tem cheiro de céu e eu ganho o tempo a me esquecer por lá.

Via teus olhos e sabia, era assim, quase como o encanto de um canto à beira-mar. O sonho antigo já dizia, abre o olho, rasga o peito, não deixa o tempo lhe estagnar. Da janela a luz dos olhos de outros dias, lá de frente, o antigo encanto a se esgueirar. Abre bem e deixa entrar todo rasgo de luz nas frestas, há um ponto de intenso desassossego que nos expande, e outro, de um vazio que pesa, para depois deixar voar. Te via então respirando fundo, era bicho solto, sem querer se deixar ficar. Desentrelacei os dedos, aprendi a caminhar sem enlaçar um pedaço que se fosse. E sorri. O que mais poderia ser simultaneamente tão solitário, reconfortante, superficial e profundo quanto o próprio silêncio que bradamos ao reconhecer o silêncio do outro? Com os olhos quentes feito a pele, ensinou que amor é instante solto no tempo, feito rede que balança o dia todo, até lhe adormecer. Fechei os olhos, ouvi todas as verdades no segundo prolongado da tua respiração. Enfim, é possível ser.

Eu fechava os olhos e sentia o cheiro de mais um domingo descompromissado. Do lado de fora o azul nos tomava feito garganta sedenta, colocávamos o corpo em posto e ríamos do próprio descompromisso ensolarado. Soltar os pés… O que será que tem lá em cima? Ontem mesmo, último dia de nossas vidas e o sol nem amanheceu. A respiração saindo assim, forte, feito menino novo que acaba de acordar. O mundo todo nos esperando fora da janela e o ar quente fazendo suar até os pés secos pelo desassossego. Já viu manter os pés lisos quem muito gosta de caminhar? O sol estourando outra vez, os olhos inchados e a pele farta que inspira feito flor, fazendo sumir toda a vontade de levantar. Deixa passar as manhãs, há tempo demais aos que teimam em enlaçar os olhos e se permitem voar.

Sentava ali na beira da praça sem saber se tu chegaria ou trocaria o tempo por qualquer espécie de caminhar. Escrevia uns versos descompromissados, é para o que servem as palavras, abraçar o tumulto, o certo, o desequilibrado e a solidão. O bonito da arte é significar a vida, e enfim, sublimar a morte.