Brasília - O morador de rua, Jonatas Santos comemora sua primeira venda. Moradores de rua do DF recebem os exemplares e os locais determinados para a venda da revista Traços  (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Brasília – O morador de rua, Jonatas Santos comemora sua primeira venda. Moradores de rua do DF recebem os exemplares e os locais determinados para a venda da revista Traços (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ontem, enquanto voltava para casa no fim de tarde, observava atentamente, como de costume, a cor do céu e as nuvens da cidade. Sempre acreditei ter o olhar atento. Parei com o carro no sinal e vi de longe dois vultos característicos dos semáforos da cidade: alguém vendia balas, alguém segurava um cartaz. Sim, vultos. Eu, com a crença do olhar atento, voltei os olhos para responder algo no celular enquanto o sinal permanecia fechado. A janela do carro estava aberta. Logo escutei o chamado “Ei, moça. Ao menos olha pra mim”. Levantei os olhos e encontrei um rosto enrugado, queimado de sol e tremendamente mal-humorado. Deve levar embora o humor essa história de ser invisível. O sinal abriu, o carro logo andou e eu não tive tempo de ler o cartaz. Voltei para casa envergonhada.

Quantos outros olhares já desviei em meus caminhos pela cidade? Quantas vozes preferi deixar de escutar? Esses tantos alguéns, incorporados à paisagem confusa e barulhenta dos sinais da W3, andam por aí a contar, repetidas vezes, histórias para ouvido ou olhar nenhum. Invisíveis. Pouco mais cedo, enquanto caminhava por um dos tantos estacionamento externos de Brasília, vi uma menina, adolescente ainda, se desviar sem cerimônias de um homem, com roupas velhas e sujas, sentado em um banco logo ao lado. O que os acompanha é sempre isso, ou a invisibilidade, ou a repulsão.

Cheguei em casa e olhei na estante minha colorida coleção da revista Traços (só a falta a número 1!). Sentei com todas as revistas na cama para colocar em dia a tarefa de ler matérias ou espaços de cultura que em encantam. A Traços representa um desses espaços e logo me lembrei o porquê. Folheando o quarto exemplar encontrei a foto de Aldecio na sessão 3×4. O rosto era familiar, comprei com ele o meu sexto e sétimo exemplar! Quando o encontrei pela primeira vez, Aldecio vestia seu uniforme de porta-voz da cultura e caminhava pela Universidade de Brasília. Corri ao seu encontro e ele logo me respondeu com um sorriso. Ali, Aldécio era visto, aguardado e procurado. Não desviei, não abaixei os olhos, não deixei de enxergar. Trocamos um boa tarde e, ansiosa, quis logo ver a capa da edição nova. Garanti a minha e, insistente, perguntei se não haveria por ali algum exemplar da número um. “Ixe, moça. Essa você não encontra mais, não. Acabou foi tudo! Vendeu tanto que não sobrou uma”. Garanti a número 6 e trocamos um sorriso de despedidas. “Vai estudar ou descansar agora?”. “Vou para a aula, já estou 10 minutos atrasada!”. “Então corre lá e bons estudos!”.

Da segunda vez que nos encontramos ele organizava suas caixas de revista no café da Universidade enquanto conversava animadamente com uma senhora. Curiosa, ela não conhecia o projeto, e Aldecio explicava ponto a ponto enquanto folheava uma revista. Orgulhoso. A senhora levou dois exemplares e eu logo fui garanti a minha edição de número 7. Novamente trocamos sorrisos e, insistente, perguntei novamente pelo primeiro exemplar. “Moça… não vai ter mesmo. Melhor garantir de presente com alguém”. Ele me mostrou a capa nova: “É a Ellen Oléria, olha como está bonita!”. “Bonita demais. “Vai estudar ou descansar agora?”. “Agora vou para casa”. “Então bom descanso”.

O Aldecio, o Afonso, a Andréia, o Francisco, o José, a Fabiana e tantos outros, finalmente, deixaram de ser invisíveis. Agora a gente sabe que o Aldecio mudou de vida, voltou a visitar os filhos e não mora mais no Garagem do Conic. Agora ele espalha cultura por Brasília e vende como ninguém seus produtos. A Traços tem mudado a vida de pessoas em situação de rua e me lembra o quanto a arte e a cultura são capazes de transformar e o quanto ações cotidianas podem transformar completamente as pequenas realidades que nos cercam. Ainda tem arte na cidade.

Orgulhoso, o Aldecio conta: “Antes, as pessoas sentiam medo ou nojo de mim. Tinha gente que jogava o dinheiro pela janela do carro, pra eu nem chegar perto. Hoje, muitas pessoas me convidam para sentar com elas na mesa do bar, eu apresento a revista e conto a minha história. Algumas até me abraçam. Sabe o que é ganhar um abraço? Pois eu já tinha esquecido”.

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Se alguém quiser me dar de presente, só falta a 1!