barquinho nas ondasA gente guarda no baú aqueles pedaços mais importantes, ainda que distantes tantas vezes, mas que ajudam a escolher o rumo na hora de navegar. Lembro que guardei com cuidado aquele pedacinho gasto e esfarrapado de ilusão temporária, bem ao lado da caixa pesada que havia sido arremessada, cheia de instantes de desacreditar. Tinha dentro do baú um caderno cheio de folhas rabiscadas e eternas linhas brancas que se recriavam, assim, eu podia escrever de novo quantas vezes fosse preciso, sem esquecer o que os dedos tiveram o cuidado de marcar um tempo antes. Quando conheci os olhinhos de menino abri a tampa do baú o mais rápido que me foi possível. Vasculhei sonhos, desejos, certezas, lembranças, eu não tinha, até então, um repertório possível. Abri então o caderno de eternas linhas brancas sem conseguir pregar os olhos no papel.

Eu respirava o sabor quente do mistério novo e regava as noites a um punhado de hortelã transformada em chá. Amassei papéis, joguei fora algumas chaves antigas, ri dos doces poemas escritos ao diário, em tempo adulto, soando quase como cantigas infantis. Arranquei um punhado de cabelos e quis desistir dessa história de navegar. Mas em todas as vezes, ao final, eu sorri. E por isso outra vez tratei de recolher as leves trouxinhas cabíveis e me lançar outra vez ao mar. As ondas batiam forte e não havia hora do dia em que eu pudesse olhar um pouco em águas calmas mas o sol permanecia quente e eu sabia que não era hora de voltar. Deixei correr outra vez o tempo, acostumei com o balanço gostoso e desenfreado das novas ondas, enfim, era eu novamente solta ao sopro solitário dos ventos, sem deixar de enlaçar os dedos e ter um porto a retornar.