escreverEnquanto as curvas de Brasília transformam a cidade em lugar de grande inspiração artística, mulheres brasilienses lutam pelo espaço no universo literário para escrever e distribuir seus versos. Projetos como o Leia mulheres e o Leia Poetisas se espalham na tentativa de ampliar o reconhecimento feminino na literatura. O objetivo é levar aos leitores a criação, muitas vezes marginalizada, de poetas em todo o país.

A ideia é ampliar o acesso e conhecimento à poesia, segmento ainda lido, divulgado e publicado em menor número e amplitude. Patrícia Colmenero, uma das criadoras do segmento poético do projeto, é também escritora e acredita que facilitar esse acesso e possibilitar que o público conheça esses trabalhos, é um passo importantíssimo para quebrar o estigma de que a poesia, por brincar com as palavras e a linguagem, não é acessível ou fácil de ser lida por todos. O objetivo é ampliar o acesso ao trabalho de poetas em cada cidade.

O Leia poetisas foi criado por Patrícia Colmeneto, Karol Bezerra, Glenes Cardoso e Mayara Almeida e escolheu o nome para deixar claro que o grupo de leitura e debates seria focado na produção feita por mulheres. Colmenero acredita que esse tipo de projeto é importantíssimo para equilibrar as estatísticas entre homens e mulheres na literatura e lembra que este é um problema histórico, já que elas, foram por muito tempo proibidas de escrever. “Esses projetos são fundamentais, talvez agora com todas essas discussões sobre direitos humanos e feminismo, haja uma abertura um pouco maior, mas isso ainda tem que ser reforçado. O mercado editorial é complicado, é importante fomentar essa leitura e incentivar que as mulheres publicam, seja na internet, em editoras independentes, ebooks, Zines. É um trabalho de formiguinha, mas tem que acontecer”, declara a escritora e produtora.

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A escritora brasiliense Patricia Colmenero

Empenhada na valorização da produção brasiliense, Patrícia se inspirou, ao lado de outras escritoras, no projeto Leia Mulheres para criar o Leia Poetisas, que teve suas primeiras edições em 2016 em Brasília e pretende se constituir como um projeto fixo. “A ideia é desmistificar a leitura de poesia e propiciar esse espaço de incentivo à leitura, ao debate e à reflexão na cidade. Muita gente tem receio de ler poesia, acredita que é complicado demais, e eu quero mostrar que é importante quebrar esse estigma”, diz a escritora. Ela busca facilitar o acesso ao público para que o interesse por trabalhos de autoras locais possa crescer.

Marina Mara, importante nome da cultura e poesia brasiliense, lembra que as mulheres tiveram acesso aos estudos há menos de cem anos, fato que influenciou que a produção literário fosse, em sua maioria, feita por homens ao longo dos anos. “Muita coisa vem melhorando, pois esse boom do feminismo serve também para reeducar nossa sociedade acerca do papel da mulher. O termo poetisa, por exemplo, não foi criado originalmente como o feminino, mas o diminutivo de poeta. Por isso me nomino poeta”, afirma.

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A poeta Marina Mara

A autora acredita que, para incentivar a produção literária atual, deveria ser previsto como política pública a oferta de mais oportunidades para poetas e novas escritoras, além da questão do equilíbrio entre os gêneros, que deveria fazer parte do cotidiano e do fazer poético. Marina se interessou pela sonoridade dos versos ainda cedo, quando pedia que sua mãe escrevesse as palavras que lhe soassem parecidas. A escritora acredita que o melhor caminho para cada poeta vai depender da produção e do perfil de cada um e ressalta que editoras independentes e editoras por demanda são um bom caminho para quem quer começar a publicar em pequenas tiragens.

Ainda que a venda de livros não tenha mostrado resultados animadores nos últimos anos, autores brasilienses se mantêm firme no propósito de fazer da literatura um meio contínuo de expressão, comunicação e reflexão. Em romance, prosa, poesia, zines ou quadrinhos, as novas e antigas gerações se adéquam aos novos tempos e a produção literária se estende entre os tradicionais impressos e os novos suportes on-line. Entre o concreto e o céu da cidade, temos autores que mostram que a inspiração para a escrita pode e deve permanecer ao longo do tempo, independentemente do suporte em que sejam colocadas as palavras e dos espaços de distribuição. O importante parece ser, de maneira consensual, criar e resistir.

Confira um pouco mais do que Patrícia Colmenero tem a dizer sobre os projetos que incentivam a literatura escrita por mulheres:

A importância das iniciativas

Eu acho que esses projetos são importantíssimos para equilibrar essas estatísticas entre homens e mulheres na literatura. A Virgínia Woof, no livro dela Um teto todo seu, fala que provavelmente muitos daqueles textos que lemos e que vem sem assinatura, assinados como anônimos, devem ter sido escrito por mulheres, mulheres que nunca foram reconhecidas como escritoras. É claro que existe um problema histórico em relação a escrita feminina pois por muito tempo as mulheres foram proibidas de escrever. Esses projetos são fundamentais, talvez agora com todas essas discussões sobre direitos humanos e feminismo, haja uma abertura um pouco maior, mas isso ainda tem que ser reforçado”.

Entenda o projeto

O Leia mulheres é um projeto internacional que se expandiu cada vez mais e cada lugar foi criando a sua versão em suas próprias cidades. O Lei poetisas seria como se fosse um sub-grupo desse projeto aqui no Distrito Federal. O Leia mulheres acabou tendo se dedicado mais a romances, podem participar todas as pessoas, que escrevem ou apenas que amam a literatura. Nós resolvemos criar o Leia poetisas porque achamos que poesia é muito pouco publicada no Brasil, pouco lido, as pessoas têm um distanciamento, acham que é algo complicado, complexo. A poesia brinca muito com a linguagem e com as palavras, enquanto o romance tem um enredo, que é mais próximo daquilo que estamos acostumados, a poesia sai desse nosso fluxo comum de procurar o enredo. Queremos incentivar as pessoas a lerem poesia sem medo, mostrar que é acessível a todos e resolvemos focar nas mulheres, que são ainda menos publicadas”.


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