Ao longo dos últimos 14 anos de palcos e coxias pude perceber que minha relação com o teatro é duradoura e permanente. Experimentei tempos de total imersão, ensaios diários e blocos de páginas a decorar; alternados por tempos mais brandos, onde a escrita me pulsava mais forte a consumir todo o tempo, enquanto o teatro era o espaço de respiro e sensação aconchegante de pertencimento presente e em memória. Entendo, cada vez mais, o espaço cênico com ponto de reflexão, pensamento, debate, espanto, encantamento, desgosto e questionamento. O teatro se diferencia pela eternidade que desperta quando se mostra vivo, ainda que se represente em um único instante passageiro. É a lição de coisa efêmera a nos impulsionar algo de permanência.

Se os espaços tradicionais de edifício teatral da cidade são cada vez mais escassos, a cena local luta para se manter firme em meio ao caos. O último mês me reacendeu certo entendimento em relação ao encanto que desenvolvi pela arte do instante. Vi surgirem movimentos de ocupação criados por amigos, grupos da cidade em cartaz e bons espetáculos vindos de fora para nos propiciar uma troca rica de experiências. E, como não poderia deixar de ser, o Cena Contemporânea. A correria dos dias me fez relembrar um pouco tardiamente do festival, ainda assim, gostaria de deixar registrado o quanto me fizeram bem os espetáculos Caranguejo Overdrive e Naufragé.

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O Cena Contemporânea convidou o público para refletir e debater as questões levantadas para além dos espaços de apresentação e Brasília foi palco para apresentações que transitaram entre o eixo político, social e de discussão de gênero. O festival confirma sua importância na cena artística da cidade e deixa como legado a certeza de que o teatro ainda é um importante espaço de reflexão. A participação ativa do público e a possibilidade de reflexão continuam a aparecer como uma das preocupações principais de atores, diretores e dramaturgos, mostrando que a expressão do teatro acontece, justamente, no instante da troca.

As duas peças convergiam para o mesmo caminho de gastar pouco e primar pela arte do ator e diretor, utilizando poucos cenários e quase nenhum figurino. No entanto, as histórias abordadas seguiam temáticas e caminhos completamente diferentes, o que me lembra que as superprodução não é necessária para produzir bons espetáculos. Em Caranguejo a veia social e política salta aos olhos e ouvidos da plateia, que assiste firme, concentrada; enquanto isso, Naufragé traz a delicadeza ingênua e leve das histórias cotidianas daqueles contos que nos fazem abrir no rosto um sorriso fácil.

naufrages-foto-diego-bresani-3-2Simplicidade entre o mar

O que me encanta em Naufragé é a presença da história cotidiana, leve, possível. Um autor/ator/diretor que se lança sozinho ao palco para contar ao público seu breve amor impossível. A solidão da caixa cênica passa então a ser dividida com um amigo inusitado, que expande os olhos do autor para enxergar além do próprio universo. Enfim, os dois se jogam entre as águas frágeis e explicitamente cenográficas do mar.

 

 

A essência do mangue

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Conversei com Pedro Kosóvski, um dos integrantes do grupo Aquela companhia de teatro e autor de Caranguejo Overdrive. Relembramos o quanto o palco pode ser um espaço importante para a expansão do questionamento. O autor acredita que o teatro é um espaço cada vez mais potente. “Em tempos de relações cada vez mais midiatizadas e virtualizadas, o teatro tem essa relação física entre ator e público. É um espaço público de compartilhamento, de sensações, afetos e discursos. Acho isso muito potente e instigante do ponto de vista político, a possibilidade de formar, naquele espaço e tempo efêmero, novas possibilidades e pensamentos”.

“Não se pode dizer que sou o que falo, as palavras valem muito pouco diante da força do apetite, porque apetite e palavra são coisas que se resolvem na boca. Falo porque tenho fome.” (Caranguejo Overdrive)

12670253_1264782460202414_4039357760456807387_nDesde a primeira frase do espetáculo da companhia, me senti conectada. O lado mais bruto das cidades era exposto ao público de maneira crua. Kosovisk criou um texto potente para contar a história de um soldado da Guerra do Paraguai (papel de Matheus Macena) que, dispensado após um colapso nervoso, retorna ao Rio de 1870. Quando volta ao seu espaço de origem, o lugar é irreconhecível, em razão das obras para a construção do Canal no Mangue, do Rio de Janeiro. A direção é de  Marco André Nunes, que leva aos espectadores uma junção extremamente forte de falas, gestos, trilha sonora ao vivo, areia e performance.  “Eu fiquei profundamente afetado em estar com esses espetáculos nesse momento aqui em Brasília, dessa efervescência política, nesse contexto o teatro tem que se politizar, criar outros modos de relação com o público, pensar de que modo ainda é possível mediar, simbolizar, no meio dessa avalanche de informações e narrativas que nos atravessam”, destaca o dramaturgo.

A gaiola de caranguejos, a lama presente, a areia em excesso e o figurino extremante simples, ajudam a recriar a atmosfera de sujeira crua dos mangues. Carolina Virguez, por sua vez, deixa o público embasbacado com sua performance prolongada e sem interrupções para contar a história do Brasil. Haja fôlego para contar tanto em meio à seca Brasiliense. O elenco é forte em seu conjunto e, do palco do Sesc garagem, saí com a certeza de que o espaço cênico é infinito em suas possibilidades.