(Fotos e texto: Isabella de Andrade)

Ela apertava assim os dedos em uma espécie de vontade contínua por movimento. Um depois o outro e depois o um, faziam barulho de fricção de pele. E apertava os olhos então, bem pequenininhos, a boca também apertada, fazendo uma curvatura que impedia a qualquer um saber se era o momento de lhe disfarçar o encontro de olhos ou lhe retribuir alguma espécie de sorriso torto. Andava rápido se havia muita gente, pois gente em excesso lhe causava uma respiração curta e uma fuga meio desvairada. Há que se adaptar àqueles que têm medo do silêncio. Passava depois as mãos assim, vagarosamente, nos braços, como a ajeitar os pelos atirava ao redor à certeza de que era absolutamente improvável lhe arrancar os olhos do céu. Aprendeu a viver de olhares demorados, pois assim era um tanto mais possível  ver as nuvens e enxergar o mar.

O calor forte da pele outra é ainda o antídoto mais poderoso para curar qualquer sensação de angústia, vazio ou solidão. Um universo se expande entre as pontas de cabelo e o toque suave das mãos. Te digo, há mais possibilidades de entender o tempo entre o suspiro quente que se espalha entre os olhos, do que em qualquer outra vaga e insonsa imensidão. Não te deixes perder entre as horas vazias ou sentirá na língua o gosto terroso e amargo do tempo.  Vai ver que os dias parecem imensos pedaços disformes de vidro, que nos cortam ao menor sinal de tentativa de locomoção, se deixar que o tempo se torne uma rocha estanque, um ardor constante, um ponto qualquer de reprovação. Mova-o, abandone-o. Abandone o tempo, as horas, os dias, a pele de antes, a roupa, o controle, a verdade, o significado, a razão. Abandone o tempo a olhos abertos e deixe-se, até que lhe apareça e lhe reconstrua alguma nova sensação.

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Fugi do sol e parei outra vez na parte mais silenciosa e isolada do todo, dentro do bosque, uma espécie de fuga fresca da realidade quente que soprava ali fora.  Alguns minutos de silêncio e a certeza esmagadora de que somos completamente finitos, poderia acabar ali, em um sopro de tempo, em alguns segundos descompassados que teimavam em me fazer pensar ser parte insubstituível daquele universo. Muda uma única palavra de lugar e pronto, acabou-se. O som é outra, a palavra é outra, o olho é o outro, a pessoa é outra que nunca nem ao menos se soubera. Algum bocado de tempo anterior havia nos dado uma falsa ideia de plenitude. Passou. Evaporou como um pingo d´água na terra quente que rodeia a cidade. Éramos pontos excessivamente reais, humanos, errôneos e sinceros perdidos no tempo. Fechei outra vez os olhos, ali a falta de barulho era capaz de esmagar qualquer estômago forte. Solta, soprada ao vento, era outra vez Maria. Não existem amores a quem duvida da sorte.

Correr o dia a céu aberto e empoeirar os pés até que a terra se misture ao próprio caminhar. Respirar pela primeira vez sem afogar-se em nostalgia e permitir que se abram e deixem-se expandir todos os vazios, até que te façam parte do próprio reconhecer. Acordei um dia e não era mais menino. Estava algo sério, algo entorpecido, algo desacreditado, algo envelhecido. Engoli o café frio e tratei logo de me apressar. E assim, perdido do menino, caminhei de encontro àquele tempo em que todo o tempo parece não bastar. Desprendido da meninice permaneceria inerte, inebriado pelo próprio caminhar. Dormi um sono sem sonho, sem nuvem e sem mistério. Acordei então sem ideia e com um extremo de vazios que teimavam em pulsar. Esbarrei na caixa azul e dourada do menino, encontrei a coleção de pedras, rosas, brancas, amarelas. Cada uma representava a certeza de ter me preenchido com algo, ainda que aparentemente sem uso, encontrado e recolhido de certo lugar. Peso, cor, cheiro, textura. A coleção dos passos dados e a certeza de que o menino não nos deixa, apenas repousa, e aguarda o homem lhe despertar.

IMG_6815Confesso, não planejei estar onde vim, ainda assim, respiro quase aliviada – existe algum receio, vá lá – com a certeza de reconhecer o instante. Lembre-se de que nem toda a importância se resguarda no macro. Existem raridades em nossos pequenos universos. “O amor é raro”, diria o menino. Vai ver que é! Observava os cabelos alvoroçados e imaginava quem já fui antes mesmo de reconhecer quem sou. Na mão, a xícara cheia de café bem doce – ainda que adepta à melancolia, não me farto muito em sabores amargos. Eu pedia um outro copo de bebida e me trazia. “Já adocei”, dizia. A língua se alvoroçava com a presença imponente dos seus sabores adocicados. Saliva. Enquanto isso, outro gole de café, como cheirava bem. Sobre os pés cruzados repousava um pequeno travesseiro listrado. Eu via as listras perdendo-se entre a pele e quase me acanhava. Mas não há motivos, todo domingo pertence aos instantes desavisados.

Retirava das pernas o travesseiro e jogava ao lado, formando ao redor sempre o seu pequeno caos. Deixava que a música soasse alta, os graves ressoavam tremendo pela parede, era possível sentir. O som, já sabia, era um pedaço de seu próprio grito de renascer. Fingia certa indiferença enquanto calçava os sapatos. ‘Anda logo, vai atrasar’. E me bagunçava. E agia feito um senhor pavão que abria suas penas para disfarçar o que chamava de meninice. Dizia que era coisa minha, mas afinal, sabíamos que era nossa. Meninos feito ontem, esperando o trem passar para poder correr os trilhos. Incertos. Respirava bem fundo e fechava devagarzinho os olhos. A boca inchada. Servia ali o chá, regando a pele já quente. E assim, permitíamos, enquanto eu engolia minha própria destemperança. Todo o tempo é tempo de se soltar.

E perdia-me outra vez entre as listras. Qual Maria não perde o rumo dos olhos ao encontrar o ponto exato do bom desassossego? Ajeitava assim de lado as pernas, como quem sabe o lugar certo de estremecer um instante qualquer. O sol a pino do lado de fora, o ventilador a fazer balançar os papeis do lado de dentro. Ria das mãos pequenas e incertas que tateavam o escuro como se não fosse algo excepcionalmente novo. Eu segurava então os punhos e mantinha frouxo o riso, firmes os dentes, tal qual uma senhora que se debruçava na janela só para esperar a ventania passar. O chão frio me fazia gelar os pés e contrastava com o calor alvoroçado do lado de fora. Ainda que não soubesse, era sol também lá dentro. Desorganizava o tempo assim, com a facilidade de quem desorganiza um punhado enfileirado de xícaras ou os próprios grãos do café. Outra vez, como cheirava bem. E assim, me permitia esquecer por completo o sabor amargo que experimentara antes da bebida doce. Por vezes, apertava outra vez a garganta. Um susto, uma volta, uma sombra atrás. Enfim, o respiro, o reflexo na frente e não me venhas com certezas fartas, duas colheres de açúcar mascavo, por favor.