No dia da consciência negra, lembrei da luta cotidiana de tantas autoras que trabalham para tentar equiparar a produção e visibilidade literária entre os gêneros. Pensei então o quanto é ainda mais difícil a conquista literária para mulheres negras e de como conhecemos poucos nomes no Brasil. Lembro hoje de uma autora periférica e conto com a ajuda de duas autoras brasilienses para falar sobre o tema.

Em 2017 a Universidade Federal do Rio Grande do Sul incluiu em suas leituras obrigatórias para o seu vestibular de 2018 o livro da escritora Carolina Maria de Jesus. A inclusão do livro entre a lista que chega a milhares de jovens reacende algumas polêmicas que envolvem a obra da escritora.

Considerada uma das primeiras e mais importantes autoras negras do Brasil por alguns, Carolina tem, mesmo com diversas obras publicadas, seus escritos contestados por parte de acadêmicos, que consideram que seu livro, Quarto de despejo – Diário de uma favelada, não poderia ser considerado literatura.

Ao lado de Machado de Assis, Clarice Lispector, José Saramago, Camões e alguns outros pesos-pesados das letras lusófonas, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) integra também a lista de leituras exigida pelo vestibular de 2019 da Unicamp. O livro relata o dia a dia de uma mulher negra e favelada, que vivia a recolher e vender papéis recicláveis. Sua escrita é pessoal e não segue os padrões gramáticos que costumam ser aceitos pela academia.

Sua obra leva aos leitores uma realidade pouco registrada entre as páginas literárias, possibilitando que se abram novas reflexões a respeito das desigualdades sociais que nos cercam. A escritora caiu no ostracismo com o passar dos anos, mas é inegável que sua obra é um importante referencial para os estudos de literatura e cultura brasileira, representando a força de nossa criação afro-brasileira.

Entre as autoras da nova geração que utilizam a literatura como meio de resistência, está a poeta brasiliense Meimei Bastos e a escritora Cristiane Sobral. Para Sobral, a poesia existe para resignificar a realidade, com suas potências sensoriais, para mudar a ordem. “A arte poética pode protestar, amar, seu poder é inesgotável”.

Cristiane Sobral – Uma das importantes vozes na literatura brasiliense

Sobre ser uma escritora negra atualmente, a autora destaca que há muito trabalho a fazer no campo da invenção, considerando o racismo e a experiência negra em nosso país. “O ponto de vista da negritude na literatura convoca a todos os leitores do planeta. Isso me motiva. Temos muitas histórias para contar, cabeças para emponderar, corações para convocar, muitos interditos a romper”, afirma Sobral. Para ela, não é preciso que outros universos temáticos e diferentes perspectivas estejam presentes em nossa literatura.

“Sua literatura é conhecida e muito vendida em outros países, mas ainda é questionada no Brasil. A quem interessa que ela não seja considerada escritora? A quem interessa que as obras da literatura afro-brasileira, que denunciam o racismo, não sejam consideradas literatura?”.

A autora destaca que a chamada literatura universal não inclui muitos grupos minoritários e a abertura do mercado é essencial. Esses autores vêm para contribuir com outros conceitos, criando personagens que protagonizam suas próprias histórias.

“O leitor quer conhecer essa diversidade e esses outros pontos de vista. A literatura é um espaço de poder e não inclui ainda o ponto de vista dos ‘vencidos’ segundo a história oficial”.

Enquanto isso, Meimei Bastos, poeta atuante na jovem cena do Distrito Federal, conta que a obra de Carolina é uma grande referência para seus próprios escritos. Quando teve contato pela primeira vez com Quarto de despejo, a poeta soube que uma mulher negra e periférica pode também produzir literatura. “Ela abriu caminhos difíceis e não escreveu apenas um diário. É muito bom ler e é melhor ainda se ler nas histórias, encontrar esse espaço de reconhecimento”.

Sua obra desperta muita admiração em escritores da periferia ainda hoje e abriu caminhos para mulheres como eu, por exemplo”. Para Meimei, a obra da escritora foi reduzida por muitos anos e agora tem sido resgatada. “Ainda existe um racismo estrutural, esse é o principal ponto que fez sua obra não ter sido valorizada no passado”, afirma. É importante que milhões de brasileiros pretos e pardos encontrem espaço. A literatura negra e periférica faz parte de toda a literatura brasileira e possibilita que aqueles que, de fato, estão como protagonista, contem suas histórias.