Escrevo esta crítica no dia 11 de maio de 2016, data em que o Senado brasileiro votará o processo de impeachment de Dilma Rousseff, eleita democraticamente por maioria popular. Nesta-quarta feira 67 senadores vão decidir pela permanência ou afastamento da presidente eleita em 2014, com 51,64% dos votos. A diferença, ainda que pequena, representa a decisão da maioria. Utilizo-me da licença poética propiciada pelas artes e, hoje, sinto-me em 1633, ano em que Galileu Galilei foi banido para uma vila em Arcetri, perto de Florença, onde viveu em prisão domiciliar até sua morte, em 1642. O cientista demonstrava descobertas revolucionárias por demais, contrariando as vontades dos senhores do poder estabelecido, que negavam a obviedade dos fatos. A ideia da Terra não ser o centro do Universo ameaçava convenientes estruturas de poder.

Quem sobreviverá às fogueiras da inquisição?

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Ainda é destaque o desfile das grandes corporações

 

“Infeliz a terra que precisa de heróis”, com essa frase podemos sintetizar os sentimentos que se expandem entre público e plateia, antes e depois do espetáculo. Levando aos palcos os temas mais frequentes da obra de Bertolt Brecht – o problema do herói, sua discutível necessidade e o uso da razão como instrumento de luta contra a barbárie – a peça desembarca em momento extremamente oportuno em Brasília. Capital do país e centro político brasileiro, a cidade foi palco, no mesmo domingo (1º de maio), para mais uma manifestação pró-governo, desta vez, liderada por movimentos e partidos que tomavam como gancho o dia dos trabalhadores. O espetáculo narra parte da biografia do cientista italiano que conseguiu provar que a Terra gira em torno do sol, mas foi obrigado a negar publicamente a sua descoberta para não ser queimado nas fogueiras da Santa Inquisição.

509427-600x600-1Enquanto isso, fora do teatro da Caixa, as ruas brasilienses se ocupavam com a efervescência política do ano de 2016 (iniciada ainda em 2014, logo após o resultado apertado das últimas eleições presidenciais). A plateia acompanhava, no palco, o desenrolar da história do cientista que tentava driblar o pensamento excludente e arcaico da época e, fora dele, as decisões e reviravoltas de uma política atual que teima em se mostrar retrógrada. As ideias conflitantes e extremistas de uma sociedade que não se deixa contaminar por ideias novas e pioneiras; os pensamentos opostos; a necessidade de permanecer, estagnados, no mesmo lugar em que a ciência, o pensamento social e o desenvolvimento humano se mostram colocados. Das cadeiras do teatro, é possível dizer que boa parte do público entendia e refletia: A arte imita a vida? Ou a vida imita a arte?

Ao final do espetáculo, já do lado de fora do edifício teatral, o elenco conversava com uma pequena parcela de espectadores que aguardavam no local e, ainda contaminados com o êxtase de seus personagens, afirmavam: “Não acreditamos que estamos em Brasília nesse momento, é bem o olho do furacão. As reações do público têm sido fortes, mas hoje foi a primeira vez que tivemos que pausar a peça por alguns instantes e escutar o que a plateia, com a garganta apertada, tinha para nos dizer”. O momento a que se referia o ator aconteceu em uma cena impactante de Galileu Galilei, quando todo o elenco se encontrava reunido no palco. Munidos de panelas e colheres os manifestantes, que eram a favor da manutenção da ordem e impedimento ao progresso, em pleno século XVII faziam o seu panelaço – em nome de Deus e da família – incentivados pela ideia de manter as certezas da época. Desta maneira, o homem continuaria a exercer seu papel de pequeno deus no centro de seu próprio mundo e a Terra continuaria estática, sendo rodeada pelo sol.

Com a interpretação primorosa e bem-humorada de Denise Fraga é possível enxergar o astrônomo apresentado por Brecht, que não se mostra como um grande herói, mas um homem comum que gosta de comer bem e aspira à riqueza. E sim, no palco a figura feminina de Denise desaparece e é possível enxergar o homem. Sobre o papel, a atriz afirma: “Galileu não é obviamente um papel para mim. Mas o teatro não tem limites e, a meu ver, se torna mais interessante quanto mais teatro for, quanto mais chamarmos o público para, num pacto, vivenciar conosco o milagre do nosso ofício”. E vivenciamos. Ao longo do espetáculo podemos acompanhar o desenrolar e as diferentes facetas de um personagem extremamente humano.

 

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Na pele cuidadosa da atriz, enxergamos as nuances de pensamento, ânimo e produção do cientista. Denise Fraga coloca no palco um Galileu ainda jovem e voraz por suas próprias descobertas, seguido pelo homem maduro que tenta se fazer acreditar pela sociedade e enfim, acompanhado pelo velho astrônomo que teima em escrever suas ideias (às escondidas) enquanto deixa a barriga crescer. As mudanças físicas e emocionais, os diferentes trejeitos e corpos das mais diversas idades são levados de maneira simples e eficaz para a plateia. Lembro-me ainda perfeitamente da cena em que a atriz se desfaz da personagem para apropriar-se de um trecho importante do texto de Brecht, falando diretamente para a plateia, com a sua própria voz e seu corpo pessoal, a atriz mostra o quanto a obra do autor lhe traz identificação e certeza. Em poucos segundos Denise retoma seu corpo de velho cientista e termina o trecho em questão com uma voz em transição, até colocar Galileu novamente no palco. O momento me marcou.

Enquanto isso, os demais personagens reforçam o espetáculo e aumentam ainda mais a relação entre artista e espectador. A presença de figuras estereotipadas ou grotescas, como os professores arrogantes da Universidade e o cachorro raivoso de sunga, interpretado por Ary França, conectam e atraem a plateia cada vez mais ao círculo que compõe o palco. A trilha sonora é bem executada e colocada de maneira a enriquecer e suavizar a dramaturgia. As músicas, tranquilamente interpretadas, trazem alguns momentos de respiro para o público, que pode refletir e absorver melhor a quantidade de ideias, lutas e problemas apresentados. É possível afirmar que boa parte da plateia sente-se parte do espetáculo, principalmente, com a identificação atual tão presente.

Galileu_Galilei_-_Joao_Caldas_2Outro destaque da peça é Daniel Warren, interpretando o pupilo de Galileu, que segue e aprende suas ideias desde a infância, tomando o caminho científico na idade adulta. É para ele que o astrônomo entrega seu último manuscrito, escrito às escondidas em sua prisão domiciliar, confiando a honra de fazer o livro atravessar o continente. Warren nos mostra a caminhada do menino que se torna homem e coloca a maturidade adquirida pelo personagem de maneira sincera e digna. O pequeno monarca de Jackie Obrigon tem ainda suas ordens decididas e controladas por senhores retrógrados, marcando outro ponto singelo e bem-humorado da peça. O pequeno rei, que pisa no chão somente com livros sob seus pés, mostra grande interesse pelo telescópio e pelas descobertas no céu feitas por Galileu. Mas em nome de ordens superiores o menino precisa também se deixar calar. A atriz que o interpreta mostra cuidado em não fazer a criança de forma extremamente caricata e assim, desperta empatia no público.

Acredito que o objetivo principal do espetáculo, contar a história de Galileu Galielu e fazer a atual sociedade refletir sobre seus próprios valores, tenha sido alcançado. O término é suave e otimista, tendo me feito sair do teatro com a sensação agradável de que, por mais dificuldade que o caminho nos imponha, é sempre possível de alguma maneira, continuar a caminhar. A obra de Bertolt Bretch é de resistência e coloca seu texto de maneira potente e convidativa. A atmosfera criada é a de que todo e qualquer ser humano precisa sair de sua própria inércia. Como bem afirma a diretora Cibele Forjaz, “o mundo não é regido por verdades superiores, imutáveis, que nós temos que aceitar e nos adequar”. Ao contrário disso, é possível, e aconselhado, que mantenhamos sempre a capacidade de duvidar, questionar, refletir e agir.

“Seremos ainda cientistas se nos desligamos da multidão? Vocês trabalham para quê? Eu acredito que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana”.

(A vida de Galileu, de Bertolt Brecht)

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