“A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”, Roland Barthes.

A diversidade de gêneros, estilos e espaços é grande na cidade e os poetas brasilienses compartilham seus versos em livros, muros, blogs, ruas, músicas e redes sociais. Entre diferentes estímulos e ambições uma ideia fica em comum: a vontade de compartilhar a criação e aproximar a poesia do maior número possível de leitores, mostrando que ela é acessível a todos.

Entre as representantes da nova geração de poetas brasilienses está Ádyla Maciel. Ela começou a escrever como um ato natural, expressão de seu próprio corpo, sensações e emoções. Sua poesia é feita com escrita livre, de preferência sem rimas, sendo possível errar e dialogar. “Para mim poesia é o ato de estar vivo, eu vejo poesia em quase tudo, no nascer de uma flor até um escândalo político, no beijo da pessoa amada, mas por incrível que pareça, também existe poesia na trágica situação econômica do povo brasileiro, ou seja, a poesia não é só falar de amor. Poesia também é meditação, é uma forma de pisar na fogueira sem queimar os pés, é história, como a de Luiz Gonzaga que juntou a fome, a sede e ador do adeus, transformou em poesia e depois em uma bela canção”. 

A poesia é música, é sonoridade, é prazer, é beleza, é lembrança, é sensação, sem ela o mundo fica mais burro, vazio, cinza, frio. Pra que serve a vida? Pra que serve a comida? Porque transamos, porque oramos, porque malhamos? Estudar pra quê? Se o futuro é a morte? A poesia não tem uma função, a poesia é a função”.

Para ela, um poeta pode ser aquele que se considerar. Um jardineiro, mesmo não sabendo escrever palavras, ele pode ser um poeta, se tiver amor pela sua atividade. Um engenheiro mesmo não gostando de poesia escrita, pode também ser um poeta, poeta das casas, formas, o que ele faz tem que ter amor e criatividade e zelo. “Meus poetas prediletos são Nelson Mandela, Santos Dumont e o meu queirido Ferreira Gullar. Uai, mas desde quando Nelson Mandela é poeta? É é sim pra mim é”.


A estrada é longa, o asfalto é quente
É bom usar bons sapatos.
Eu lembro quando aprendi a desenhar estrelas.
Triângulo por cima de triângulo.
Eu lembro que foi em meio à escuridão
que eu aprendi a brilhar sozinha”.

Esse é um trechinho da poesia Blecaute Mundial, confere aqui o que ela nos contou sobre os versos: “Ela tem um significado muito especial pra nós mulheres. Quando eu digo que a estrada é longa, o asfalto é quente… quero dizer que é no meio da caminhada ainda vai existir muitos obstáculos, preconceito, então é necessário usarmos bons sapatos, ou seja, estarmos preparadas, o sapato simboliza, a armadura. No final vamos olhar pra trás e perceber que foi tão simples quanto aprender a desenhar uma estrela um triângulo por cima do outro”.


Poema completo

Blecaute Mundial
Se acabassem as luzes do mundo inteiro
Que roupa você usaria hoje?
Que sapato? Qual batom?
Qual jóia preciosa penduraria no pescoço?
Se findasse a lua.
Se desaparecesse o sol
E todas as luzes artificiais
Se não restassem nem mesmo as luzes dos vaga-lumes
De que cor você pintaria as unhas?
Preto sépia?
Paris?
Rubi, Rebú?
Francesinha?
Ou Apuros em Miami?
A estrada é longa, o asfalto é quente…
É bom usar bons sapatos.
Eu lembro quando aprendi a desenhar estrelas.
Triângulo por cima de triângulo.
Eu lembro que foi em meio à escuridão
que eu aprendi a brilhar sozinha.

Ádyla Maciel-