A ideia principal é preencher nas livrarias e estantes pessoais uma lacuna criada pela falta histórica de reconhecimento cultural e intelectual feminino. Hoje trazemos uma entrevista com a Martha Lopes, uma das criadoras do KDmulheres.


Martha Lopes, jornalista e escritora, 32 anos. Escreve poesias e contos desde adolescente

e publicou o livro “Em Carne Viva” pela Kayá Editora.

Quando e como foi criado o KDMulheres?

Foi criado em 2014 quando saiu a lista da Flip, que, naquele ano, tinha 7 mulheres para 44 autores convidados. Eu, a jornalista Laura Folgueira e mais algumas mulheres da ONG feminista Casa de Lua decidimos criar um manifesto provocativo sobre essa pequena participação feminina. Criamos uma fanzine e fomos até a Flip, em Paraty, onde organizamos um bate-papo sobre o assunto na praça da Matriz. A partir dessa iniciativa, nos organizamos como um coletivo que desenvolve várias atividades. Publicamos outras fanzines (uma delas com seleção aberta de mulheres: http://www.bancatatui.com.br/editoras/kdmulheres/).

Demos oficinas gratuitas de escrita para mulheres e desenvolvemos um projeto de midialivrismo, contemplado pelo edital municipal redes e ruas no ano passado, que visa a resgatar histórias de escritoras brasileiras que foram invisibilizadas pela história, além de trazer entrevistas com mulheres que, para a nossa curadoria, merecem maior destaque por seu trabalho literário. Esse projeto inclui, ainda, um mapa em que qualquer menina que esteja começando a escrever possa se cadastrar e uma série de rodas de conversa temáticas em praças públicas, com assuntos como literatura na internet, produzida por mulheres negras, nas periferias e lésbica. Este é o site: http://kdmulheres.com.br.

Por que motivos projetos como este são importantes para as escritoras? Acredita que essas iniciativas têm ajudado a aumentar a visibilidade da produção literária feita por mulheres?

Temos uma desvantagem histórica para superar. Historicamente, as mulheres tiveram acesso à escrita e à educação mais tarde do que os homens. Isso por si só já é uma dificuldade, mas o machismo, como esse grande mecanismo estrutural, se coloca em várias etapas do processo para a mulher que quer escrever. Por exemplo, muitas mulheres ainda assumem o cuidado dos filhos, não contam com a divisão igualitária de tarefas dentro de casa, e tudo isso se reflete em tempo para a escrita. É comum, por exemplo, ver escritores com filhos em eventos, viagens, reclusos no processo de produção literária. E as mulheres com filhos? Isso já é mais raro.

Tem toda uma questão temática também, de as mulheres ficarem relegadas a temas “femininos”, a gêneros relacionados ao amor romântico e à delicadeza. É aquilo: o homem produz literatura, a mulher produz “literatura feminina”. Enfim, acho que esses projetos são importantes para chamar a atenção para esses processos que acontecem, para que possam ressignificá-los, pensar ações que promovam mudança e tragam mais mulheres aos holofotes.

Acredita que atualmente ainda seja grande a diferença de alcance e reconhecimento entre escritores e escritoras ou esse cenário já mudou? Ainda existe preconceito em relação a questão de gênero na literatura?

Acho que, no Brasil, o debate ganhou muita amplitude nos últimos anos. Em 2014, quando fomos para a Flip, não víamos essa discussão em outros espaços, hoje está bem frequente. Mas ainda temos muitos pontos: falta visibilidade para as escritoras negras, indígenas, para a produção das periferias… E falta uma cobertura adequada por parte da imprensa, que, muitas vezes, ainda destaca a aparência ou a vida pessoal da mulher, mais do que sua obra. E o preconceito existe porque o machismo se embrenha em todas as instâncias e áreas. A pessoa que torce o nariz para uma mulher em um posto que envolve tomada de decisão e poder em uma empresa certamente torcerá o nariz para um livro escrito por uma mulher, ou para um prêmio literário atribuído a uma mulher.

 O que poderia ser feito para que a literatura produzida por mulheres tenha um alcance cada vez maior, a ponto de alcançar paridade com a produzida por homens?

Não é algo que se resolva de um dia para o outro. Trata-se de desvantagem histórica, como falei. É preciso levar a escrita e a literatura para meninas e jovens negras nas áreas de maior vulnerabilidade, debater o assunto, estimular editores a repensarem escolhas, ter mais mulheres em postos de tomada de decisão nas editoras e nos jornais, pressionar a mídia para que as coberturas sejam menos machistas, ter mais mulheres nas curadorias de eventos e premiações. Enfim, educar mulheres, publicar mulheres, dar visibilidade a mulheres – e em toda a nossa diversidade racial, sexual, regional.

O que tem te trazido mais satisfação em relação ao projeto?

É satisfatório ver que um tema que começamos a levantar em 2014 de forma um pouco solitária hoje ganhou vários espaços. Também é satisfatório ver editores e curadores começarem a olhar para a questão com atenção. A pauta deixou de ser uma preocupação de nicho, isso é muito importante. 

Você costuma ler mais livros escritos por mulheres atualmente?

Estou pessoalmente comprometida com isso. Não deixo de ler livros escritos por homens, mas me policio para pesquisar autoras novas, conhecer seu trabalho, equilibrar minhas escolhas e meu consumo. É uma escolha política que acho importante. Este ano, por exemplo, não li um livro escrito por um homem ainda. 

Qual sua autora preferida?

Tenho muitas autoras preferidas. Estrangeiras: Chimamanda, Marguerite Duras, Virginia Woolf. Brasileiras: Clarice Lispector, Hilda Hilst, Conceição Evaristo


Aproveita e confere as entrevistas anteriores, com as meninas do Leia Mulheres e Leia Mulheres negras:

Para ler mais mulheres

Leia mulheres negras