12357241_10153053259882723_35875199554752203_oDeixo aqui um trecho do meu primeiro livro, Veracidade. Lembrando que quem quiser comprar basta me enviar um email (isabelladeandrade@gmail.com) ou me procurar pelo facebook/isabelladeandrade.

Com o correr dos anos finalmente entendi que podemos ser e nos pertencer em vários pedaços diferentes. Desses que se criam com o desenrolar de cada história. Não tento mais me entender como ideia única ou me reduzir a um só. São vários olhares que fazem parte de uma mesma essência. O todo unificado visto de longe e o infinito percebido com a proximidade. Percebemo-nos em cada pedaço que se constrói e se reconhece como parte completa.

Você de dia, Clarissa, seus olhos preguiçosos,
cheios de vontade de me provocar.
Você nas tardes, aquele riso cansado,
e sua pele que me abraça até sufocar.
Você de noite, Clarissa, aquele respiro calmo,
uns olhos mansos de quem carregou meu sossego
e nem se lembrou de me avisar.

A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza. Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio, impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece.

Andaram a me perguntar de você, Clarissa. E digo, me perco um pouco quando tento te explicar. Eu te encontrei pela primeira vez dentro de casa, em um sábado absolutamente parado, estático. A noite era quente e fazia barulho lá fora, enquanto eu sentia saudade e um silêncio assustado por dentro. Saudade de tanta coisa, saudade até de quem eu era antes de saber tudo o que sei agora. E te encontrei como um ponto de fôlego, um momento de sossego, todo o meu sonho de sensação colocado em papel. Talvez por isso eu fale tanto em saudade quando falo a você, Clarissa. Era saudade o que eu sentia naquela primeira noite escrita. Era, principalmente, saudade de mim.

A verdade é que era desconhecido de prazeres até então. Não por não tê-los, mas por não saber que os tinha. Ou por saber que os tinha com tamanha intensidade que acostumei-me a substituí-los pelo medo. Tu não sabe, menina, mas a experiência de qualquer prazer apavora aqueles que andam carregados de culpas de si. Reconhecem-se como gente mansa por demais, e aqui me incluo, após longa análise e a partir desse reconhecimento, passam a se sentir culpados. Não sabe que a doçura em excesso vira fardo? Ela escorre pela pele, sem aviso prévio, e te faz grudar no próprio corpo. Corpos presos sentem-se culpados. E assim, esse tipo de gente – aqui me incluo, menina, não se esqueça – só consegue se desprender após conhecer gente que tenha os olhos cheios de mundo como os teus, que consegue libertar qualquer criatura, excessivamente doce, da culpa pelo prazer.

A culpa é uma espécie de fome constante por algum antigo sentimento que lhe foi tomado. A gente tenta preencher os corpos dessa fome de mundo, mas não existem fatos suficientes para cobrir a quantidade de espaços que se criam ao retirar de seu posto fixo uma profunda sensação. O espaço arde inicialmente, não aprendemos lá muito bem a lidar com vazios. O vento quente da cidade bate por dentro e espalha os últimos pedaços de carne que restavam. E assim, o vento frio e desaforado a céu aberto pode, enfim, entrar e derrubar, sem nenhum princípio, toda e qualquer antiga certeza.

Faz-se silêncio. Acompanhado do firme barulho alvoroçado por toda a gente ao redor. Retoma-se o espaço, não como ponto preenchido, mas como firme vazio, impenetrável por toda verdade controversa. Formam-se as primeiras palavras, trazidas pelo frescor das novas texturas e sensações. A palavra nova, assim como as primeiras sensações, tem um sabor tão forte que coloca as mais secas línguas a salivarem em cada pequeno pedaço de degustação. Entendido o vazio do espaço, formam-se raízes, mais firmes que qualquer velha e rasa sensação. O vento passa novamente, soprando por dentro, e enfim, há lugar para o suspiro assobiado. O tempo faz música a quem lhe reconhece e em seguida, a gente anda de mãos dadas, em silêncio, com a solidão. A pele dela é macia de um jeito que nem sei lhe dizer.

Lembro-me, e gostaria dizer que vagamente, mas me lembro com força e avidez, do tempo em que meu estômago se sentia corroído pelo silêncio. Como se estar só fosse uma espécie de quarto escuro e arredondado, de onde eu não fazia a mais remota ideia de como sair. Lembro de abrir as cortinas e olhar pela janela com os olhos fixos em algum ponto perdido da imensidão. O ar frio da noite alisava a minha pele, como uma porção de dedos macios e delicados. Chorei ruidosamente, tal qual uma criança birrenta que ao menor sinal de pedido negado, quer jogar-se ao chão. Queria amassar todos os cadernos e atirar bolas de papel em qualquer um que ousasse não ouvir o que eu tinha a dizer. É engraçado o tamanho da importância que podemos dar às nossas próprias palavras em tempos de nervos aguçados. Desculpei-me. Desamassei as folhas de papel. Talvez, solto entre o silêncio palpável das noites, eu ainda fosse a criatura mais acostumada às horas sós, dentre todas as criaturas. Talvez eu gostasse delas. E talvez, isso tudo fosse completamente agradável, há que se saber escutar o pulso firme e suave do silêncio.

Eu sempre cheguei um pouco atrasado, Clarissa. Por isso me acostumei a observar. Como se meus olhos pudessem entender tudo aquilo que eu deveria ter sentido. Mas são apenas olhos como outros quaisquer. Então eu apenas olhava e tentava imaginar de um jeito diferente tudo aquilo que eu tinha visto. A lembrança é uma tremenda armadilha que a gente constrói. Mas quando eu te olhava, eu via o que imaginava, Clarissa. Meus olhos mudaram completamente. A verdade, é que teu nome me é agora atemporal, Clarissa. Busquei teu cheiro no café forte e a textura da tua pele no meio do meu emaranhado de papéis. Nada. É como se eu tivesse te inventado para justificar quem já fui, frente aos olhos doces e ainda assim, vigilantes, de quem me tornei. Sem perceber, te fiz parte de meus próprios pedaços e te digo, não sei justificar meus pedaços, Clarissa. Cada um deles tornou-se um inteiro por si só e ainda assim, caminhamos e nos entendemos apenas todos juntos, quebrados e intactos, retalhados e inteiros. Teu nome deve andar por aí, preso a algum pedaço de saudade voraz a que matei de fome.

Não há sal na terra que me cubra de gosto como teu tempero intensamente destemperado, Clarissa. Era como sentir a origem do gosto, o começo da saliva, o início do degustar. A mesma sensação de inacreditável surpresa, que subia enroscada por todo e qualquer fio de cabelo que fosse tocado pelo teu sal. Sempre foi assim, o céu nos teus olhos e uma avalanche na tua pele. Eu fiquei tão doido de amor que esqueci como era amar, Clarissa. Fiquei, enfim, só doido mesmo. Quando me dei conta de ter fugido de mim no meio da loucura, busquei desesperado por todo e qualquer pedaço de sanidade. Pude me reconhecer novamente e dei sorte, a poesia me salvou de tornar-me totalmente são.

Você de dia, Clarissa, seus olhos preguiçosos,
cheios de vontade de me provocar.
Você nas tardes, aquele riso cansado,
e sua pele que me abraça até sufocar.
Você de noite, Clarissa, aquele respiro calmo,
uns olhos mansos de quem carregou meu sossego
e nem se lembrou de me avisar.