Hoje eu terminei o livro da Mariana Carpanezzi, O mundo sem anéis – 100 dias em bicicleta. Entre a mistura de diário de bordo, crônicas de uma ciclista e redescoberta como mulher, Mariana nos faz pedalar por entre as 100 páginas de seu livro despretensiosamente leve. A vontade de se aventurar e descobrir os desafios dos próprios caminhos é certa após o último recorte de memória. A liberdade de Mariana se traduz em encontrar o caminho livre do próprio ser, sozinho ou acompanhado, expansivo ou mais encabulado, entre a força de muitos quilômetros pedalados ou a caminhada leve de quem se aventura por pequenos passos. Sua certeza é a de que o caminho da liberdade é pessoal, adaptável e constantemente redescoberto.

Lembrei-me de quando tatuei um livro desforme em meu braço, fazendo questão de puxar a palavra “livre” de dentro das páginas. Foi ali, entre as palavras, livros e cadernos, que pude encontrar a sensação mais genuína de liberdade que já senti, seja ela individual ou compartilhada.

Na aconchegante barraca azul

Mas voltemos a Carpanezzi. Em seu relato sincero e fragmentado de uma viagem solitária e silenciosa, a autora nos transporta pelos caminhos de uma mulher, inexperiente nas pedaladas, que decidi escalar suas próprias montanhas, transpondo obstáculos internos e externos. A sensação de liberdade ao colocar o pé na estrada e conhecer novos mundos sem a previsibilidade da rotina impulsionava a vontade constante de trilhar sempre novos caminhos.

Mariana Carpanezzi percorreu, de bicicleta, França, Espanha e Portugal. A trajetória durou 100 dias e deu origem ao livro O mundo sem anéis, que foi escrito e ilustrado durante 9 meses em diferentes países, a partir de um bloquinho de folhas amassadas e um saco cheio de pastilha de aquarela e de nanquim.

“As viagens são uma espécie de respiração para mim. Tenho muita dificuldade de criar raízes e rotinas num só lugar, tenho vontade de ir embora e realmente viver em vários lugares”,

Carpanezzi conta que a experiência confirmou sua vontade de partir e a fez sentir mais como ela mesma. O livro surgiu como algo natural, com um convite feito pelo selo brasiliense Longe. A inclinação para escrever apareceu com a percepção de que as descobertas da viagem precisavam ser traduzidas à sua maneira. “Sempre me dá vontade de nunca mais voltar”.

Quando saiu para pedalar com uma amiga Mariana tinha a intenção de viajar por apenas quinze dias, mas ao final de duas semanas, não conseguiu voltar para casa. “Quando comecei a viajar de bicicleta e experimentar a sensação de só passar pelas coisas, sem ficar em lugar nenhum, senti uma liberdade incrível. Aquela era a minha casa: uma partida eterna. Perceber isso foi fazer as pazes comigo mesma”.

O livro não foi escrito em narrativa convencional e linear. Ao longo das páginas a escritora conta suas memórias emocionais, encontros com gente nova, sensações de falta.

“Quis escrever sobre a viagem a partir do processo de memória, ele acaba parecendo um pouco um diário, porque é minha forma mais natural de escrita. Minha linha de pesquisa é explorar minha própria identidade em narrativas confessionais”.


Quatro perguntas para Mariana Carpanezzi

O que as viagens significam pra você?

Não sou muito de viajar a passeio. Sou uma péssima turista e uma companhia pior ainda… Viajei e viajo muito, sozinha, mas porque tinha e tenho vontade de ir embora e realmente viver em vários lugares. As viagens são uma espécie de respiração pra mim. Tenho muita dificuldade de criar raízes e rotinas num só lugar.

Como foi transformar a experiência em literatura?

Escrevi na estrada, durante 9 meses, porque na época eu não tinha casa fixa. “O mundo sem anéis” foi escrito e desenhado na Espanha, Índia, Portugal e Alemanha. No começo, só conseguia pensar o livro como uma narrativa convencional, contando a viagem com começo, meio e fim. Durante o processo de pesquisa, e principalmente durante a escrita, as coisas foram mudando. Percebi que minha experiência daquela história era puramente emocional, e que sendo emocional, era também não era linear. Na minha memória, e até hoje, ela surge sob a forma de lampejos emocionais hiperbólicos, tudo muito intenso: um encontro muito forte com alguém, sensações de falta durante alguns dias, uma suspensão onírica no encontro com uma cadeia de montanhas… E tudo muito solitário, porque eu viajei sem ninguém. Então quis escrever sobre a viagem a partir do processo de memória, e portanto ele é um livro muito íntimo e pouco turístico.

 

O que a viagem despertou e mudou em você, a ponto de surgir a necessidade de virar livro?

Acho que não me mudou tanto. Acho que o que ela fez foi mais revelar, mesmo, que aquela vontade de partir devia ter alguma coisa a ver com algo maior, então fiquei muito diferente depois da viagem, mas me senti mais eu mesma. O livro veio como algo natural, orgânico. Sei lá: o convite surgiu do modo mais lindo, e eu senti inclinação de escrever, talvez porque ela ainda estivesse ainda muito viva dentro de mim e precisasse ser traduzida à minha maneira.

Como é, para uma mulher, viajar sozinha?

Olha, eu tenho essa sorte maravilhosa de ter nascido com um pai e uma mãe que nunca me contaram direito que eu era mulher. Eu tenho um irmão quase da mesma idade, e nós dois brincávamos das mesmas coisas, sabe? Nunca tinha muito isso de “você faz coisa de menina, ele faz coisa de menino”. Éramos pessoas, ponto final. Então nunca pensei muito sobre isso. Fui viajar porque gosto, mesmo, e nunca me senti desprotegida. Já deixei muito ciclista homem pra trás, sabe? E sempre tomo os cuidados necessários, de acordo com a etiqueta do lugar, claro, considerando que alguns são mais perigosos para nós meninas. Mas acho que nasci e vou morrer meio moleca, mesmo. Adoro ser mulher, mas dificilmente coloco os gêneros em campos separados. Acho que a gente pode ser um pouco de tudo, sem fronteiras.